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Como pronunciar Arjen Robben

Clique aqui para ouvir as pronúncias dos holandeses para o nome do jogador Arjen Robben.

A pronúncia clássica e mais comum é com o R vibrante (ouça) , um som incomum no Brasil, mas que a gente ouve na fala de pessoas como Luiz Felipe Scolari (Felipão) e José Serra.   

A segunda pronúncia válida é um som gutural (clique para ouvir) que, aos ouvidos de um brasileiro, soa como o nosso "RR", mas que os holandeses vão achar bem diferente.
Ainda em alguns sotaques, o som do R de Robben é realmente idêntico ao som do R inicial no Brasil (ouça e compare)   
Com tudo isso, como é que grande parte dos jornalistas do Brasil escolhe pronunciar o nome do jogador holandês? Com um R retroflexo (ouça), como se estivessem falando inglês. É que, em certa lógica provinciana brasileira, toda língua exótica é inglês. 
  
É preciso contar toda a verdade: até existe uma cidade na Holanda (Leiden) onde as pessoas realmente falam Robben desse jeito, com R retroflexo como em inglês. Mas isso justifica a pronúncia que os jornalistas têm dado? A resposta honesta é não. No máximo, a informação serve de desculpa ad hoc para quem adotava a pronúncia sem nunca ter ouvido falar de Leiden.

É indefensável que Robben seja pronunciado no Brasil de qualquer forma que não igual a robem (de roubar). Além de ser aceitável em holandês, é o nosso jeito natural de falar. O que não é nada natural para a gente é o R retroflexo que imita o inglês. A pessoa que fala assim sai da naturalidade dela achando que está sendo mais correta e elegante, quando, na verdade, está conseguindo justamente o contrário. O nome técnico para isso é hipercorreção. É o mesmo erro que o pai de Gleisi Hoffman cometeu: quis homenagear Grace Kelly, mas achou que /Greice/ era pronúncia de gente ignorante e "corrigiu" para /Gleice/.

EU TÔ ou EU TOU? Qual é o certo?

Resposta curta: Em Portugal, só se usa "tou". No Brasil, os dois são usados; "tô" é mais comum, mas "tou" é mais recomendável.

Resposta longa: 
A maioria dos brasileiros escreve "tô", inclusive em publicações impressas. Em Portugal, por outro lado, ninguém pensa em escrever "tô": tou é a única forma conhecida. Por quê? Seria porque eles pronunciam o U, ao contrário dos brasileiros? A resposta está justamente no contrário: eles pronunciam ainda menos que nós. 

Em fala relaxada, os brasileiros não pronunciam o U de palavras como roubou. Só pronunciam numa fala tensa, seja quando estão lendo diretamente de um texto, seja quando estão falando com muita ênfase. A palavra ou, por exemplo (e que exemplo é melhor?), é normalmente falada /ô/, mas se ouve /ou/ quando é falada de forma lenta e enfática. A expressão ou seja parece ser falada assim sempre. O U também é sempre ouvido na forma inteira estou, porque essa palavra só é ouvida em situações de muito monitoramento ou influência da escrita.

Já com os portugueses a história é outra. Eles falam estou sempre /estô/, ou sempre /ô/, roubou sempre /robô/, não importa o grau de monitoramento. (A exceção é a região norte do país, onde, ao contrário, falam sempre /estou/, /ou/, /roubou/, não importa o quê.) 

A lógica então é essa: se um brasileiro escreve "tô", é porque ele acha que, se escrevesse "tou", o leitor poderia se enganar e pronunciar o U. Um português, ao contrário, não tem a menor chance de pronunciar esse U, por isso escreve "tou" mesmo, uma derivação mais natural a partir de "estou" e que combina com sou e dou (já que que ninguém escreve e em país nenhum)

Faça a sua escolha. Recomendo tou.

Como pronunciar HOUSE (Acha que sabe? Vem ver, então)


Seu inglês pode não ser lá essas coisas, mas pelo menos house você sabe pronunciar! Uma palavra tão básica você não pode errar. Ou pode?

Saiba que a quase totalidade dos brasileiros pronuncia essa palavra errado. Quase todas as pessoas dizem /hauz/, quando não /hauzi/. É assim que falam o nome do seriado Doutor House. Adivinha só: está errado! O certo é /haus/, o jeito que os brasileiros falam o nome da bala Halls. Ouça a diferença:

Só se deve pronunciar /hauz/ quando a palavra for usada como verbo (querendo dizer alojar/abrigar ou dar moradia a alguém). Quando for o substantivo, como quase sempre é, o S tem que ser pronunciado surdo, e não com som de Z. Isso ainda vale se a palavra seguinte começar com vogal ou consoante sonora, já que, no inglês, ao contrário do português, o S não se sonoriza nesses casos. Os exemplos abaixo demonstram isso.
house wine:
House of Cards:

Tem um detalhe interessante: quando se trata do plural houses, a pronúncia varia. Alguns pronunciam /hauziz/, outros /hausiz/.  

Veja o quanto Rachel Sheherazade mudou o sotaque depois de ficar famosa



Nesse vídeo, a famosa jornalista Rachel Sheherazade pronuncia a palavra "blocão" de um jeito estranho, reparem. Ela pronuncia a palavra como /blô-cão/. Que eu saiba, todos os brasileiros pronunciam /bló-cão/, com o O aberto.
A explicação deve ser que Sheherazade faz um esforço consciente para trocar o seu sotaque paraibano natural por um sotaque "neutro" televisivo. Uma das regras mentais que ela adota para falar como os jornalistas do Sul e Sudeste é sempre trocar as vogais /é/ e /ó/ em sílaba pretônica por /ê/ e /ô/. Só que era para essa regra ter exceções, como o caso da palavra blocão. Ao falar /blô-cão/, a jornalista erra de tanta vontade de acertar, um fenômeno que a gente chama de hipercorreção ou ultracorreção.

Não é desde sempre que Rachel Sheherazade luta contra o sotaque; isso só começou de uns tempos para cá. Quando ela ainda não era famosa e trabalhava na TV Tambaú (afiliada do SBT em João Pessoa), ela falava com um sotaque nordestino muito mais solto. Vejam o vídeo que catapultou ela para a fama:
Os exemplos mais salientes que a gente ouve aí são a palatalização de /s/ antes de /t/ (feshtas, reshto) e a abertura das vogais pretônicas (Ó-linda, proté-ção). Por contraexemplo, ela palataliza as oclusivas dentais (fala tchi em vez de ti), o que não é típico da Paraíba.

Tendo ganhado projeção nacional, a jornalista foi convidada por Sílvio Santos a ir para a matriz do SBT em São Paulo. Lá, passou a apresentar o jornal SBT Brasil e fazer comentários de ampla repercussão nacional. É bem provável que, a partir desse momento, ela tenha recebido a orientação de apagar o sotaque por completo. Afinal, como ela mesma disse uma vez: 
"O que vemos são muitos jornalistas do eixo Rio-São Paulo em outras partes do País ancorando telejornais. Nunca fiquei sabendo de um jornalista da Paraíba comandando um jornal nacional em horário nobre."
Numa entrevista, perguntaram explicitamente a Rachel Sheherazade se ela controlava o sotaque para falar na televisão (clique para acessar o vídeo e comece a 18'00''). A resposta foi essa: 
Quando eu comecei a fazer TV, a primeira coisa que me disseram é o seguinte: quem tem que chamar a atenção é a notícia. Não é teu cabelo, não é tua maquiagem, não é a tua roupa nem o brinco que cê usa, e nem a forma como você fala. Então você tem que falar de uma maneira... uma forma neutra. Então, eu sempre busquei neutralizar o sotaque, desde a Paraíba já.
 Algumas pessoas diriam que fazer jornalistas nordestinos disfarçarem o sotaque é "preconceito linguístico". É uma interpretação possível, mas quem pensa assim tem o consolo de saber que a mesma instrução é dada a jornalistas de todas as regiões, não só do Nordeste. William Bonner é paulista, mas nem parece, porque ele também "neutralizou" o sotaque. Fátima Bernardes idem (ela é carioca). 

Depois do FULANO, vem o SICLANO ou o SICRANO?


Depois do fulano, vem o sicrano, com R. "Siclano" com L está errado. Até existe a palavra ciclano, mas ela é da química e designa um hidrocarboneto cíclico saturado.

Como foi que o povo se meteu a falar "Siclano", então? Desconfio que essa variante tenha origem numa hipercorreção (ou ultracorreção), que quer dizer errar de tanta vontade de acertar. Existem pessoas no Brasil que falam Cráudia em vez de Cláudia e chicrete em vez de chiclete, num fenômeno denominado rotacismo. Tais pessoas sabem que essa forma de falar é estigmatizada na sociedade, considerada feia e própria de gente sem instrução. Sabendo disso, esses falantes mudam o jeito de falar em algumas situações: em vez de falar Cráudia, falam Cláudia, para serem melhor aceitos pelos outros. Seguindo a mesma lógica, trocam Sicrano, que só pode ser coisa de gente ignorante, por Siclano, que, essa sim, deve ser a forma correta. E erram pela vontade de acertar: está aí a hipercorreção. 

Prova viva desse fenômeno é a ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffmann. Os pais dela queriam homenagear a princesa e atriz Grace Kelly, mas o pai pensou que a pronúncia "greice" fosse errada, coisa de ignorante. "Corrigiu" então o nome para Gleisi, fazendo uma hipercorreção que a ministra vai ter de carregar até o fim da vida e além. (Fonte: UOL)

Outro exemplo do fenômeno da hipercorreção é o nome Cleusa, forma "corrigida" de Creusa, que, ao que tudo indica, vem de Creúsa, figura da mitologia grega. 

Toplessaço, uma palavra muito estranha

A palavra recém-criada toplessaço foi, como é óbvio, formada a partir de topless mais o sufixo -aço, que quer dizer grande. Quando se lê a palavra, parece tudo normal. Quando se ouve, no entanto, sente-se que alguma coisa está muito errada. 

É que, em português, sempre que uma palavra termina com S, ele passa a soar como Z quando se encontra com uma vogal. Por exemplo, viés enviesado, e não enviessado. No mesmo padrão, topless deveria dar "toplesaço" (com som /z/), e não toplessaço. É com certeza assim que a palavra teria ficado se tivesse sido criada oralmente, seguindo as regras naturais da fonologia, em vez de ser montada na escrita, que é mais artificial.

Você pode argumentar que topless é uma palavra inglesa e não portuguesa. Mas o fato é que a palavra topless entrou no português. No instante em que isso ocorreu, ela passou a seguir as mesmas regras de pronúncia de qualquer outra palavra da língua. Nós ainda a escrevemos na forma original topless, mas poderíamos escrever topelés ou até topelez, já que, em português, não existe diferenciação entre os sons /s/ e /z/ em fim de palavra. São sons em distribuição complementar. Já falei disso em outro artigo, no qual eu explicava a pronúncia que os brasileiros dão a "Miss Universo".

Fudeu ou fodeu? Fudido ou fodido? Fudendo ou fodendo?

Neste blog, os textos sobre palavrões são os que fazem mais sucesso. 
Resposta curta: O certo é foder, fodeu, fodido, fodendo. As versões com U são erros.


Resposta longa: 
O negócio é o seguinte. O radical do verbo foder é fod-: 
fod + ER       = foder
fod + o          = fodo
fod + e          = fode
fod + EMOS = fodemos
fod + em       = fodem
fod + I           = fodi
fod + EU       = fodeu
fod + ERAM  = foderam
fod + ESSE   = fodesse
fod + a           = foda
fod + am        = fodam
fod + IDO       = fodido
fod + ENDO   = fodendo

Séculos atrás, o O de todas essas palavras sempre tinha som de O mesmo. Até que sobreveio uma mudança linguística e o O passou a ter som de U. Mas atenção! Isso não afetou todas as palavras! Só aquelas nas quais o O era átono (fraco). Quando o O era tônico, continuou tendo o som que sempre tinha. 

As palavras azuis da lista são aquelas onde o O do radical é tônico. São as chamadas formas rizotônicas. Elas têm esse nome porque "rizo" quer dizer raiz, e a raiz no caso é "fod-". (A própria palavra "radical", aliás, originalmente quer dizer "relativo a raiz".) As palavras rizotônicas são aquelas em que o O continuou com som de O e que, por isso, não são escritas errado por ninguém. Já viu alguém escrever "fuda-se"?

As palavras vermelhas da lista são aquelas onde o O do radical é átono. São as chamadas formas arrizotônicas. Nelas, a raiz fod- perde a tonicidade, e o O, fraco, passou a ter som de U. A mudança de som não se refletiu na escrita, a não ser para as pessoas que escrevem errado (*fudeu, *fudido, etc.).

O que a gente acabou de ver para o verbo foder vale identicamente para, por exemplo, o verbo comer, pronunciado como se fosse escrito "cumer". Comeu é uma forma arrizotônica, come é uma forma rizotônica. Mas ninguém escreve *cumeu, *cumido, *cumendo. Por que, então, é diferente para foder? Por que é que a gente vê tanto *fudeu, *fudido, *fudendo?

Você já deve saber a resposta: foder é uma palavra tabu, e por isso não aparece em muitos textos de respeito, ortograficamente cuidados. Aí os brasileiros não têm tanta oportunidade de ver a escrita correta, ao contrário do que acontece para comer, que a gente lê em todo lugar.

Digo "brasileiros" porque já vi portugueses na internet estranhando o hábito brasileiro de escrever "fuder". Talvez eles estejam mais acostumados a representar /u/ com a letra O, e com isso aceitem mais naturalmente a escrita correta foder.


A origem

Uma curiosidade é que a palavra foder vem do latim futuere. Isso indica que o som /u/ do latim virou /o/ no português (foder), e, mais tarde, voltou a ser /u/, como é hoje (mas, dessa vez, sem que a escrita acompanhasse a mudança). A língua vai e volta. 

Como pronunciar Roosevelt e Bush


De todos os chefes de estado da história, nenhum teve o nome falado errado mais vezes do que Roosevelt. Não importa qual dos dois, Franklin ou Theodore. 
Clique para ouvir:


Já vou dizendo: a pronúncia do nome é /ˈɹoʊzəvɛlt/, ou, usando as convenções do português, rôuzevelt. No Brasil, a pronúncia corrente é \rúzvel\ ou \rúzvelt\. De fato, no inglês, "oo" costuma representar o som /u:/. Só em muito poucas palavras essa regra falha. Uma delas é Roosevelt

Não é só no português que esse engano é cometido. Como é que eu sei? Há idiomas que não usam o nosso alfabeto e, por isso, são obrigados a mudar a escrita de "Roosevelt", adaptando-a à sua pronúncia. Transliterando de volta ao alfabeto latino a forma como escreveram o nome do ex-presidente, vemos: Rúzvel't (russo), Ruzvelt (iídiche), Rūzuberuto (japonês). Em contrapartida, em hindi é rozvel. Poderia ser porque o hindi teve mais contato com o inglês?  

E por que é que Roosevelt se pronuncia desse jeito tão inusitado, que confunde o mundo inteiro? É que vem do holandês rosevelt, que quer dizer "campo de rosas". Velt é cognato de field; rosa em inglês se diz rose, e qualquer um que já viu o filme Titanic sabe pronunciar essa palavra, mesmo que só tenha visto alguns minutos. Clique aqui para ver todas as (muitas) falas do filme em que esse nome aparece.

E Bush? De novo, também não importa qual dos dois. Não importa se é Bush pai ou Bush filho. Esse outro nome presidencial relacionado com planta   não ganha de Roosevelt na competição pelo título de mais malpronunciado, mas é um candidato competitivo. Ouça a pronúncia nativa:


Muitos brasileiros falam "Bush" como /bʌʃ/, ou, escrevendo de outra forma, \bâch\. Pronunciam o U do nome do mesmo jeito que o U de up. Na verdade, o U de Bush se fala /ʊ/, igual ao de push. É como o som de U no português, só que com a língua um pouco mais para baixo e para frente. É o som que em português fazemos para o O no fim das palavras, como em pato /pa'tʊ/. Ouça abaixo esse som aparentemente exótico.
O jeito certo de pronunciar o nome em português é \buch\, mas qualquer um entende por que uma pessoa comete o engano. É que a letra U em inglês sabidamente representa o som \â\ num grande número de casos, como luck. Mas nem sempre. A aplicação exagerada de uma suposta regra da língua, levando ao erro, se chama hipercorreção. De tanto querer acertar, a pessoa erra. O problema aqui é que a letra U também representa em inglês /u:/, como em true, e há ainda um terceiro som, raro, que é esse U fechado que você ouviu, como em put, cushion e sugar. Se quer saber, esse era o som original do U. Com o tempo, a pronúncia mudou para o \â\ atual. O som antigo só continuou em algumas poucas palavras, especialmente as que começavam em P, F ou B e terminavam em L, CH ou SH. Bush é uma das palavras que se encaixam nessa descrição. Outros exemplos: fullbull, que os brasileiros pronunciam corretamente em "Full House" e "Red Bull".  

Para os que não entenderam o porquê da imagem de um arbusto acima, ou nem pensaram nisso: bush quer dizer arbusto.

Resetar, Call of Duty

O neologismo "resetar" deriva da palavra inglesa reset, no sentido de volta ao estado inicial depois de um erro num computador. 

Acontece que reset vem de re + set, e a pronúncia reflete isso: nessa palavra em inglês, o S é pronunciado [s], e não como [z]. Tanto é que o Wiktionary registra a duvidosa variante "ressett". O indivíduo que inventou "resetar" e pronunciou \rezetar\ certamente não enxergou que vinha de set, ou talvez nem conhecesse essa palavra. Com certeza também não tinha ouvido "setar", um neologismo ainda mais detestável. 

Por outro lado, foi a pronúncia, e não a escrita, que foi levada em conta quando surgiram as formas "futebol" (football), "náilon" (nylon), "caubói" (cowboy), e muitas outras. Do contrário, seria *fotebal, *nílon e *coubói. Até com palavras francesas aconteceu assim: "birô" (de bureau), "chofer" (choffeur). Pode-se dizer que a tendência do português é se aproximar da pronúncia original, embora haja exceções (Texaco, Volkswagen). Essa tendência é o que leva a crer que a pessoa que decidiu falar \rezetar\ fez assim por ignorância da pronúncia original. E é a ignorância interlinguística que gera infinitas outras pronúncias que poderíamos chamar de erradas. Seja por aplicar os padrões do português, como em reset, seja por aplicar padrões verdadeiros do inglês de forma equivocada, um fenômeno chamado hipercorreção. Quem pronuncia o duty de Call of Duty como \dâtchi\ está fazendo uma hipercorreção, uma vez que a pronúncia americana é /duːti/ (a canadense e britânica seria /djuːti/). É que o U em inglês muitas vezes se pronuncia \â\; a hipercorreção consiste em aplicar essa regra onde não deveria.

Os franceses, ao contrário de nós, tendem a ler os nomes estrangeiros como se estivessem escritos em francês. Isso faz com que São Paulo seja lido \Saô Polô\. Pior: Jethro Tull é falado  /ʒe'tʁo tyl/. Em contraste, os brasileiros tentam falar o nome dessa banda como os ingleses falam, só fazendo adaptações para acomodá-lo à fonologia do português. 

Nesses casos, a escrita tem precedência sobre a fala. Não é só com palavras estrangeiras que isso acontece: dentro da própria língua, os falantes podem passar a pronunciar uma palavra de certa maneira com base na ortografia. Um exemplo forte: as palavras digno e maligno eram pronunciadas e escritas dino e malino. Na época do Renascimento, as pessoas passaram a escrevê-las com G mudo, só para lembrar a escrita do latim. Muita gente que só conheceu a palavra a partir da leitura deve ter começado a pronunciar o G, sem saber que era mudo, e essa pronúncia acabou se tornando a única. 

Esse fenômeno é abundante e há exemplos em várias línguas. Mas a ciência linguística não o reconhece. É que ele se choca com o dogma de que é sempre a fala que determina a escrita, nunca o contrário. Acontece que as teorias é têm que se adaptar aos fatos, não os fatos às teorias. As pessoas não vão voltar a pronunciar "digno" como *dino só para satisfazer as concepções dos linguistas. Os linguistas é que vão ter que abaixar a cabeça e reconhecer que, às vezes, a escrita determina a fala.

Em tempo: o neologismo também aparece na forma "ressetar". O tempo dirá qual das duas vai prevalecer: a baseada na escrita ou a baseada na fala.