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RAPAR ou RASPAR ou cabelo? Qual é o certo?

Você já deve ter reparado que, quando os jornais transcrevem a fala de uma gravação, eles põem em itálico as formas linguísticas não padrão, como ou pra. A premissa é que seriam "desvios", como que palavras estrangeiras intrometidas.

Mas eis que eu vejo isso no Jornal Hoje da Globo: 
 "Eu tive que rapar minha cabeça, né?"
O responsável pelo texto aceitou até mesmo a contração informal "né", mas não aguentou o "rapar" e o marcou com o estigma do itálico. Deve ter pensado que seria uma corruptela de raspar, essa sim a forma correta.

Pois ele errou feio. A palavra rapar existe no português pelo menos desde o século XIII e um dos seus significados é cortar rente o pelo com navalha. Está até na Bíblia: “Então Jó se levantou, e rasgou o seu manto, e rapou a sua cabeça, e se lançou em terra, e adorou” (Jó. 1:20)

Existem muitos gramáticos que dizem até o contrário do que o funcionário da Globo inferiu: rapar a cabeça seria a única forma correta, e raspar a cabeça seria um erro. Mas essa é uma visão minoritária: a maioria aceita como igualmente corretos rapar e raspar (ambos de etimologia germânica; o Houaiss dá hrapon e hraspon, respectivamente).

PIRIGUETE ou PERIGUETE? Qual é o certo?

Periguete está escrito com E no dicionário Aurélio Escolar, talvez o único dicionário consagrado que contenha essa palavra. A definição dada é "moça ou mulher que, não tendo namorado, demonstra interesse por qualquer um". A imprensa sisuda parece também adotar a grafia com E, que, no Google, rende mais resultados do que "piriguete". É o suficiente para proclamar que periguete é o certo. 

A gente pode afirmar com confiança que a palavra veio de perigo (ou algum derivado) mais o sufixo -ete. Essa origem justificaria a grafia com E. 

Mas, se você perguntar à internet, vai obter as respostas mais esquisitas. 
 na Bahia, visitantes estrangeiros que se dedicavam ao seu inocente turismozinho sexual de costume, “tentando imitar os brasileiros, chamavam as mulheres de gatinhas [...] Eles se confundiam e, em vez de falar little cat, falavam pretty cat (ou pretty girl, alegam alguns dissidentes); os locais, ao tentar imitar os turistas (por quê, mesmo?), acabavam embolando as duas palavras e pronunciavam /piriquéte/ — e daí piriguete“. Como a Bahia atrai brasileiros de todos os estados, e a Ivete Sangalo canta uma música que ostenta este vocábulo na letra, nada mais natural, então, que ele tenha se espraiado pelo país afora… Fonte 

A palavra teve origem na periferia de Salvador. A expressão 'periguete', que é mais usada na versão 'piriguete', é fruto da junção das palavras "perigosa" e "girl" (garota em inglês), porém o “ete” foi adaptado para dar soar melhor. Fonte

Essas explicações soam falsas, têm cara de falsas, têm cheiro de falsas, têm gosto de falsas, e, se você tateá-las, vai ver que têm consistência de falsas também. Ou melhor, não têm é consistência nenhuma.

A afirmação de que a palavra vem do inglês é suficiente para duvidar da história. O Brasil é rico em lendas assim. Quem é que nunca ouviu que forró se originou do inglês for all? E essa nem é a pior. Não é surpreendente que a maioria dessas lendas urbanas use palavras do inglês, língua vulgarizada e disponível para muito linguista de boteco. Se tantas palavras aparecessem pela influência de estrangeiros, seria de se esperar que mais delas viessem de línguas mais obscuras, como alemão ou polonês.

O que completa o aroma de inautenticidade das histórias é a transformação fonética super-rápida que o termo teria sofrido. Como é que "piriquete" teria virado "piriguete" num tempo tão curto? Tudo bem que algo parecido aconteceu com o latim no caminho até o português, com amicus virando amigo, mas isso levou séculos. E que história é essa de "girl" virar "guete" para "soar melhor"? Eu aguardo o dia em que Batgirl vai ser chamada de Batguete. 

As duas lendas são eliminadas pela Navalha de Occam, princípio segundo o qual, na dúvida, deve ser adotada a explicação mais simples, que implique o menor número de suposições novas. Ambas as lendas são cheias de suposições inusitadas: que um estrangeiro que conhecesse a expressão "gatinha" fosse inventar de traduzir para o seu idioma; que ele se enganasse e fizesse uma tradução errada; que os baianos quisessem imitar a expressão; e por aí vai. Compare essa complicada sucessão de bobagens com a simplicidade da nossa hipótese: periguete é uma garota-perigo. 

Depois do FULANO, vem o SICLANO ou o SICRANO?


Depois do fulano, vem o sicrano, com R. "Siclano" com L está errado. Até existe a palavra ciclano, mas ela é da química e designa um hidrocarboneto cíclico saturado.

Como foi que o povo se meteu a falar "Siclano", então? Desconfio que essa variante tenha origem numa hipercorreção (ou ultracorreção), que quer dizer errar de tanta vontade de acertar. Existem pessoas no Brasil que falam Cráudia em vez de Cláudia e chicrete em vez de chiclete, num fenômeno denominado rotacismo. Tais pessoas sabem que essa forma de falar é estigmatizada na sociedade, considerada feia e própria de gente sem instrução. Sabendo disso, esses falantes mudam o jeito de falar em algumas situações: em vez de falar Cráudia, falam Cláudia, para serem melhor aceitos pelos outros. Seguindo a mesma lógica, trocam Sicrano, que só pode ser coisa de gente ignorante, por Siclano, que, essa sim, deve ser a forma correta. E erram pela vontade de acertar: está aí a hipercorreção. 

Prova viva desse fenômeno é a ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffmann. Os pais dela queriam homenagear a princesa e atriz Grace Kelly, mas o pai pensou que a pronúncia "greice" fosse errada, coisa de ignorante. "Corrigiu" então o nome para Gleisi, fazendo uma hipercorreção que a ministra vai ter de carregar até o fim da vida e além. (Fonte: UOL)

Outro exemplo do fenômeno da hipercorreção é o nome Cleusa, forma "corrigida" de Creusa, que, ao que tudo indica, vem de Creúsa, figura da mitologia grega. 

Como é que se escreve: VIADO ou VEADO?

Escrever "viado" está sempre errado, a não ser que você queira se referir a um "tecido de lã, com riscas ou veios". É assim que o dicionário Houaiss define o adjetivo e substantivo viado, datado do ano 1340.

A palavra chula veado, usada em referência a homossexuais masculinos, apareceu como sentido figurado do nome do animal. Em Portugal e na maior parte do Brasil (se não em todo ele), a letra E da palavra é pronunciada como se fosse I. Essa transformação de /e/ átono em /i/ é especialmente comum em português quando o E vem antes de vogal: veado, passearcontemporâneo, leão, compreender


Nem por isso se deve escrever a palavra como "viado", que é um erro de ortografia. O porquê desse erro ser tão comum é explicável: nós ouvimos palavrões o tempo todo, mas quase nunca os lemos. Em consequência, pouca gente aprende a escrita correta. Isso explica por que vemos tantos palavrões escritos errados nas pichações escolares e nas seções de comentários na internet. Muita gente estudada escreve *cú ou *buceta, quando o correto é cu e boceta. É que essas pessoas já leram muitos livros, mas nenhum deles continha essas palavras. 


Por que então a palavra veado no sentido de cervídeo não é jamais escrita errada? Já há até uma convenção informal: veado é o bicho, *viado é o homem. Já grafaram *viado até em legendas de filme. E existe gente que insiste que o certo é "viado" porque a origem da palavra seria desviado ou transviado. Como nunca houve evidência disso, podemos dizer: é FALSO. Isso se chama etimologia popular. Quando a etimologia proposta soa óbvia demais, quase sempre se encaixa nisso. É o mesmo caso de forró, que, reza a lenda, viria de "for all". Nunca vamos saber quem inventou essas bobagens, porque poderia ser qualquer pessoa; não é preciso ter estudado nada para fazer conexões superficiais como essas. 


Então por que a palavra veado costuma ser escrita certo quando o sentido é de cervídeo? Porque é mais comum ler a palavra com esse sentido em livros e revistas, que têm revisão ortográfica e jamais errariam a grafia de veado. Em contraste, quando se  o insulto tabu, é quase sempre uma situação informal: seções de comentários na internet, carteiras escolares, boxes de banheiro... Nessas situações, pouca gente toma cuidado com a ortografia e escreve *viado sem medo.


Mas mesmo quem tenta escrever corretamente lê *viado escrito sempre assim na pena dos xingadores e pode seguir o exemplo, achando que é o correto. Imitações desse tipo é que criam uma ortografia. "Veado bicho, viado homem" virou uma espécie de convenção, tanto que já foi flagrada em escrita ortograficamente cuidada. Mas é errada.  Não se trata só de um erro de ortografia, que na língua tem potencial para virar correto um dia. É também um erro objetivo: não são duas palavras diferentes, mas uma só. O certo é sempre veado, a não ser que você esteja se referindo a um tecido de lã com riscas ou veios. 


Atualização 03/10/2019 - Desde que escrevi este artigo, que fez muito sucesso, mudei ligeiramente de posicionamento. A grafia "viado" é tão consolidada no Brasil que lutar contra ela me parece fútil. Seu domínio é tal que se tornou possível a um redator bem-informado optar por ela em vez de "veado" com o específico fim de seguir a convenção social, o que torna filosoficamente problemático classificar tal conduta de "erro ortográfico". Mantenho, contudo, a posição de que a origem do termo está no cervídeo, e não nas palavras "desviado" ou "transviado". Aproveito para justificar a afirmação: uma regra da linguística é que, quando ocorre na língua mudança sonora, ela tende a afetar todas as palavras relevantes. E, até onde eu saiba, não há exemplos de outras palavras iniciadas por "des" ou "trans" que tenham perdido estas partículas. Ao contrário, há casos em que o tempo acrescentou a partícula "des", mesmo ela sendo absolutamente redundante: penso especificamente em "desinquieto", que é sinônimo de "inquieto". Isso sugere fortemente que a origem de "viado" está mesmo numa analogia com o animal saltitante, como, aliás, também pensam nossos dicionaristas mais renomados.