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Fudeu ou fodeu? Fudido ou fodido? Fudendo ou fodendo?

Neste blog, os textos sobre palavrões são os que fazem mais sucesso. 
Resposta curta: O certo é foder, fodeu, fodido, fodendo. As versões com U são erros.


Resposta longa: 
O negócio é o seguinte. O radical do verbo foder é fod-: 
fod + ER       = foder
fod + o          = fodo
fod + e          = fode
fod + EMOS = fodemos
fod + em       = fodem
fod + I           = fodi
fod + EU       = fodeu
fod + ERAM  = foderam
fod + ESSE   = fodesse
fod + a           = foda
fod + am        = fodam
fod + IDO       = fodido
fod + ENDO   = fodendo

Séculos atrás, o O de todas essas palavras sempre tinha som de O mesmo. Até que sobreveio uma mudança linguística e o O passou a ter som de U. Mas atenção! Isso não afetou todas as palavras! Só aquelas nas quais o O era átono (fraco). Quando o O era tônico, continuou tendo o som que sempre tinha. 

As palavras azuis da lista são aquelas onde o O do radical é tônico. São as chamadas formas rizotônicas. Elas têm esse nome porque "rizo" quer dizer raiz, e a raiz no caso é "fod-". (A própria palavra "radical", aliás, originalmente quer dizer "relativo a raiz".) As palavras rizotônicas são aquelas em que o O continuou com som de O e que, por isso, não são escritas errado por ninguém. Já viu alguém escrever "fuda-se"?

As palavras vermelhas da lista são aquelas onde o O do radical é átono. São as chamadas formas arrizotônicas. Nelas, a raiz fod- perde a tonicidade, e o O, fraco, passou a ter som de U. A mudança de som não se refletiu na escrita, a não ser para as pessoas que escrevem errado (*fudeu, *fudido, etc.).

O que a gente acabou de ver para o verbo foder vale identicamente para, por exemplo, o verbo comer, pronunciado como se fosse escrito "cumer". Comeu é uma forma arrizotônica, come é uma forma rizotônica. Mas ninguém escreve *cumeu, *cumido, *cumendo. Por que, então, é diferente para foder? Por que é que a gente vê tanto *fudeu, *fudido, *fudendo?

Você já deve saber a resposta: foder é uma palavra tabu, e por isso não aparece em muitos textos de respeito, ortograficamente cuidados. Aí os brasileiros não têm tanta oportunidade de ver a escrita correta, ao contrário do que acontece para comer, que a gente lê em todo lugar.

Digo "brasileiros" porque já vi portugueses na internet estranhando o hábito brasileiro de escrever "fuder". Talvez eles estejam mais acostumados a representar /u/ com a letra O, e com isso aceitem mais naturalmente a escrita correta foder.


A origem

Uma curiosidade é que a palavra foder vem do latim futuere. Isso indica que o som /u/ do latim virou /o/ no português (foder), e, mais tarde, voltou a ser /u/, como é hoje (mas, dessa vez, sem que a escrita acompanhasse a mudança). A língua vai e volta. 

Como é que se escreve: VIADO ou VEADO?

Escrever "viado" está sempre errado, a não ser que você queira se referir a um "tecido de lã, com riscas ou veios". É assim que o dicionário Houaiss define o adjetivo e substantivo viado, datado do ano 1340.

A palavra chula veado, usada em referência a homossexuais masculinos, apareceu como sentido figurado do nome do animal. Em Portugal e na maior parte do Brasil (se não em todo ele), a letra E da palavra é pronunciada como se fosse I. Essa transformação de /e/ átono em /i/ é especialmente comum em português quando o E vem antes de vogal: veado, passearcontemporâneo, leão, compreender


Nem por isso se deve escrever a palavra como "viado", que é um erro de ortografia. O porquê desse erro ser tão comum é explicável: nós ouvimos palavrões o tempo todo, mas quase nunca os lemos. Em consequência, pouca gente aprende a escrita correta. Isso explica por que vemos tantos palavrões escritos errados nas pichações escolares e nas seções de comentários na internet. Muita gente estudada escreve *cú ou *buceta, quando o correto é cu e boceta. É que essas pessoas já leram muitos livros, mas nenhum deles continha essas palavras. 


Por que então a palavra veado no sentido de cervídeo não é jamais escrita errada? Já há até uma convenção informal: veado é o bicho, *viado é o homem. Já grafaram *viado até em legendas de filme. E existe gente que insiste que o certo é "viado" porque a origem da palavra seria desviado ou transviado. Como nunca houve evidência disso, podemos dizer: é FALSO. Isso se chama etimologia popular. Quando a etimologia proposta soa óbvia demais, quase sempre se encaixa nisso. É o mesmo caso de forró, que, reza a lenda, viria de "for all". Nunca vamos saber quem inventou essas bobagens, porque poderia ser qualquer pessoa; não é preciso ter estudado nada para fazer conexões superficiais como essas. 


Então por que a palavra veado costuma ser escrita certo quando o sentido é de cervídeo? Porque é mais comum ler a palavra com esse sentido em livros e revistas, que têm revisão ortográfica e jamais errariam a grafia de veado. Em contraste, quando se  o insulto tabu, é quase sempre uma situação informal: seções de comentários na internet, carteiras escolares, boxes de banheiro... Nessas situações, pouca gente toma cuidado com a ortografia e escreve *viado sem medo.


Mas mesmo quem tenta escrever corretamente lê *viado escrito sempre assim na pena dos xingadores e pode seguir o exemplo, achando que é o correto. Imitações desse tipo é que criam uma ortografia. "Veado bicho, viado homem" virou uma espécie de convenção, tanto que já foi flagrada em escrita ortograficamente cuidada. Mas é errada.  Não se trata só de um erro de ortografia, que na língua tem potencial para virar correto um dia. É também um erro objetivo: não são duas palavras diferentes, mas uma só. O certo é sempre veado, a não ser que você esteja se referindo a um tecido de lã com riscas ou veios. 


Atualização 03/10/2019 - Desde que escrevi este artigo, que fez muito sucesso, mudei ligeiramente de posicionamento. A grafia "viado" é tão consolidada no Brasil que lutar contra ela me parece fútil. Seu domínio é tal que se tornou possível a um redator bem-informado optar por ela em vez de "veado" com o específico fim de seguir a convenção social, o que torna filosoficamente problemático classificar tal conduta de "erro ortográfico". Mantenho, contudo, a posição de que a origem do termo está no cervídeo, e não nas palavras "desviado" ou "transviado". Aproveito para justificar a afirmação: uma regra da linguística é que, quando ocorre na língua mudança sonora, ela tende a afetar todas as palavras relevantes. E, até onde eu saiba, não há exemplos de outras palavras iniciadas por "des" ou "trans" que tenham perdido estas partículas. Ao contrário, há casos em que o tempo acrescentou a partícula "des", mesmo ela sendo absolutamente redundante: penso especificamente em "desinquieto", que é sinônimo de "inquieto". Isso sugere fortemente que a origem de "viado" está mesmo numa analogia com o animal saltitante, como, aliás, também pensam nossos dicionaristas mais renomados.