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EU TÔ ou EU TOU? Qual é o certo?

Resposta curta: Em Portugal, só se usa "tou". No Brasil, os dois são usados; "tô" é mais comum, mas "tou" é mais recomendável.

Resposta longa: 
A maioria dos brasileiros escreve "tô", inclusive em publicações impressas. Em Portugal, por outro lado, ninguém pensa em escrever "tô": tou é a única forma conhecida. Por quê? Seria porque eles pronunciam o U, ao contrário dos brasileiros? A resposta está justamente no contrário: eles pronunciam ainda menos que nós. 

Em fala relaxada, os brasileiros não pronunciam o U de palavras como roubou. Só pronunciam numa fala tensa, seja quando estão lendo diretamente de um texto, seja quando estão falando com muita ênfase. A palavra ou, por exemplo (e que exemplo é melhor?), é normalmente falada /ô/, mas se ouve /ou/ quando é falada de forma lenta e enfática. A expressão ou seja parece ser falada assim sempre. O U também é sempre ouvido na forma inteira estou, porque essa palavra só é ouvida em situações de muito monitoramento ou influência da escrita.

Já com os portugueses a história é outra. Eles falam estou sempre /estô/, ou sempre /ô/, roubou sempre /robô/, não importa o grau de monitoramento. (A exceção é a região norte do país, onde, ao contrário, falam sempre /estou/, /ou/, /roubou/, não importa o quê.) 

A lógica então é essa: se um brasileiro escreve "tô", é porque ele acha que, se escrevesse "tou", o leitor poderia se enganar e pronunciar o U. Um português, ao contrário, não tem a menor chance de pronunciar esse U, por isso escreve "tou" mesmo, uma derivação mais natural a partir de "estou" e que combina com sou e dou (já que que ninguém escreve e em país nenhum)

Faça a sua escolha. Recomendo tou.

Consoantes dobradas não são enfeite


O que é que a atriz Paolla Oliveira e o cantor Gusttavo Lima têm em comum? Uma letra sobrando. 

Consta que a atriz Paola Oliveira consultou uma numeróloga e concluiu que teria mais sorte se enfiasse uma letra a mais no nome. Das opções que lhe foram oferecidas, ela optou por dobrar o L, e desde então adota esse nome deformado. 

Gusttavo Lima é outro caso. Seu nome real é Nivaldo, mas ele adotou Gustavo como nome artístico. Mais tarde, dobrou o T por capricho e virou um inédito "Gusttavo". 

Muitos pais no Brasil cometem o mesmo engano ao batizar os filhos: acham que as consoantes dobradas são um enfeite. Não são. Se você é um futuro pai e já pensou em chamar o seu filho de Brunno ou a sua filha de Carollina, leia com atenção.

Por que as consoantes dobradas existem, se não fazem diferença na pronúncia? A explicação é tão simples que surpreende: essas letras são escritas duas vezes porque antigamente eram pronunciadas duas vezes. 

Não entendeu? Ouça a diferença entre as palavras latinas annus (ano, tempo de órbita da Terra) e anus (ânus). Note como o /n/ é mais longo na primeira.

Quando o latim virou português, as consoantes que eram faladas duas vezes passaram a ser faladas uma só. Annus virou ano. 

Aí, no século XVI, virou moda voltar a escrever com consoantes dobradas: passaram a escrever anno, commercio, collar, etc., mesmo falando as consoantes uma vez só. Era a época do Renascimento e o espírito era de valorizar a herança romana, escrevendo as palavras como eram escritas em latim.

Mas aí veio o problema: nem todo mundo sabe latim. Os eruditos que conhecem a língua sabiam que o certo era escrever parallelo e não paralello, porque em latim era parallelus. Mas quem não sabia latim (a maioria) se confundia e dobrava consoantes ao seu bel-prazer. Para acabar com essa situação, em 1911 fizeram uma reforma que simplificou a ortografia do português. Se só pronunciamos a consoante uma vez, só devemos escrevê-la uma vez também. Anno virou ano, commercio virou comércio, Anna virou Ana, Brenno virou Breno.

O ideal seria que você seguisse a ortografia e chamasse os seus filhos de Ana, Breno e Gabriela, e não de Anna, Brenno e Gabriella. Mas, se insistir em usar consoantes dobradas, pelo menos use direito: só quando tiverem justificativa etimológica. Isso só se dá em dois casos: 

1- quando o nome tem origem no latim e a consoante era pronunciada duas vezes nessa língua
2- quando é um nome estrangeiro de uma língua que usa consoantes dobradas na escrita. 

Exemplos de grafias aceitáveis: 

Anna (do latim Anna)
Brenno (de Brennus)
Danielle (do francês Danielle)
Isabella (do italiano Isabella)
Marcello (do latim Marcellus)

Exemplos de grafias inaceitáveis:

*Brunno em vez de Bruno (do italiano Bruno, do germânico brun) *Dannielly em vez de Danielle (do francês Danielle, derivado de Daniel, do latim Daniel, originado do hebraico daniyél)
*Gusttavo em vez de Gustavo (do sueco arcaico Gustav)
*Paolla em vez de Paola (do italiano Paola, originado do latim Paulus)
*Phillipe em vez de Philippe (originado do grego Philippos; comparar com o francês Philippe) 
*Matheus em vez de Mattheus (do latim Matthaeus, originado do hebraico Matityahu)
*Senna em vez de Sena, inclusive no nome de Ayrton Senna (vem da cidade de Sena/Siena, sempre com um N só)

Detalhe: em italiano ainda existem as consoantes que são faladas duas vezes. Os italianos ainda falam anno diferente de ano. Isso torna a decisão de Paolla Paola Oliveira ainda pior, porque o nome dela é italiano! 

Por que é que POKÉMON tem acento?


Talvez você já tenha se perguntado isso quando era criança. Por que é que "Pokémon" tem acento no E, se a vogal tônica é o O?  Por que é que não é simplesmente "Pokemon"?

A resposta é que, ao decidir como escreveriam essa marca japonesa no alfabeto latino (o nosso alfabeto), tinham em mente o inglês, não o português. 


Como assim? Todo mundo sabe que o inglês não tem acentos.


Mais ou menos. O inglês tem muitas palavras derivadas do francês que podem ser escritas com acento, como cliché, café, élite, résumé. Na maior parte do tempo, eles acabam abandonando o sinal porque não acham necessário: cliche, cafe, elite. Mas há uma tendência de conservar o acento quando pode resolver dúvidas de pronúncia. Um exemplo excelente é résumé. Em francês a palavra tem dois acentos, mas em inglês escrevem só com um: resumé (pronunciado /RÉ-zyu-mei/). Por quê? Porque o primeiro é desnecessário, mas o que fica no fim da palavra tem uma função: diferencia a palavra de resume, cujo segundo E é mudo (/rɪ-ZYUM/). Clique no quadradinho para ouvir a diferença de pronúncia: 


De tanto usar esses acentos em palavras francesas, os falantes de inglês também passaram a usá-los em palavras de outras línguas com a mesma simples função, a de mostrar que o E não é mudo. Para ficar no japonês, um exemplo é saké, derivada do japonês sake (que nós grafamos saquê) e pronunciada /SA-ki/. O acento foi posto no E para diferenciar de sake /seik/, em que o E não é pronunciado. 


Voltando para Pokémon

Pokémon ganhou acento agudo para indicar aos falantes de inglês que o E não é mudo. Ou seja, para evitar que falassem /'powk,mon/. Além disso, o acento tem a mesma função que tem em francês: abrir o timbre do E. Ou seja, deve-se ler /'powkei,mon/, e não /'powki,mon/. (Usei a vírgula para indicar o acento tônico secundário).   

Para nós, falantes de português, o acento poderia ter o efeito oposto e levar o público a pronunciar errado. Mas, apesar do acento, todos nós aprendemos a falar o nome corretamente, à maneira japonesa. Clique para ouvir.