Você já deve ter reparado que, quando os jornais transcrevem a fala de uma gravação, eles põem em itálico as formas linguísticas não padrão, como tá ou pra. A premissa é que seriam "desvios", como que palavras estrangeiras intrometidas.
Mas eis que eu vejo isso no Jornal Hoje da Globo:
"Eu tive que rapar minha cabeça, né?"
O responsável pelo texto aceitou até mesmo a contração informal "né", mas não aguentou o "rapar" e o marcou com o estigma do itálico. Deve ter pensado que seria uma corruptela de raspar, essa sim a forma correta.
Pois ele errou feio. A palavra rapar existe no português pelo menos desde o século XIII e um dos seus significados é cortar rente o pelo com navalha. Está até na Bíblia: “Então Jó se levantou, e rasgou o seu manto, e rapou a sua cabeça, e se lançou em terra, e adorou” (Jó. 1:20).
Existem muitos gramáticos que dizem até o contrário do que o funcionário da Globo inferiu: rapar a cabeça seria a única forma correta, e raspar a cabeça seria um erro. Mas essa é uma visão minoritária: a maioria aceita como igualmente corretos rapar e raspar (ambos de etimologia germânica; o Houaiss dá hrapon e hraspon, respectivamente).
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Você fala igualzinho ao Chico Bento e não sabe. Veja só
As falas das histórias do Chico Bento sempre vêm numa escrita fora do comum, a não ser quando o personagem é urbano ou escolarizado (e não necessariamente os dois ao mesmo tempo).
Mas quem escreve essas falas não entende de linguística e faz errado: muitas vezes, usam uma grafia alterada para representar um fenômeno fonético que eles pretendem que seja rural, mas que, na verdade, está na fala de todos os brasileiros.
Vamos tomar os quadrinhos acima de exemplo. Quando Chico Bento diz "I eu qui vô sabê? Ocê também feiz prova?", a professora fica ultrajada em ouvir um português tão errado e briga com ele. Mas o que ele falou foi tão errado assim? Vamos descobrir.
I, QUI - As palavras "e" e "que" não são faladas de outra forma na língua padrão da mídia, assim como na fala habitual de todos os brasileiros, exceto em alguns poucos pontos do Sul. Qual é o sentido, então, de escrever "qui" no balão em vez de "que", "di" em vez de "de" ou "mi" em vez de "me"? O que é que se quer representar com isso? Só se for que o personagem não sabe escrever.
VÔ - É aceitável terem escrito assim, porque as pessoas em geral falam /vou/ quando estão lendo um texto. Apesar disso, diga-se que absolutamente TODOS os brasileiros falam /vô/ em fala relaxada, tanto no campo quanto na cidade. A maioria dos portugueses também fala assim (no caso deles, não só na fala relaxada, mas também na mais monitorada).
SABÊ - Na língua padrão se costuma falar /saber/, mas, em linguagem mais espontânea, 100% dos brasileiros falam "sabê". Chico Bento não está sozinho.
OCÊ - Esse aí está justificado. "Ocê" não é tão difundido no Brasil. O mais difundido é "cê".
FEIZ - A grande maioria dos brasileiros fala /feis/, /nóis/, /mais/ as palavras escritas fez, nós, mas, exatamente como o Chico Bento; a exceção fica com algumas regiões no Sudeste e no Sul. Com certeza a professora pronunciou "portuguêis", mas no balão dela está escrito "português". Por que, então, está escrito "feiz" no balão do Chico? Dois pesos e duas medidas.
Conclusão: nos balões do Chico Bento poderia perfeitamente estar escrito "E eu que vou saber? Ocê também fez prova?". Aí é que a gente vê que a reação da professora foi absurda, no sentido original da palavra mesmo: logicamente impossível. Tem que lembrar que ela está ouvindo o Chico Bento falar, não está lendo balões no ar, e a gente não pode ouvir erros de ortografia como "qui" e "vô". Para a professora ter achado que o Chico Bento falou errado, só mesmo ela tendo OUVIDO os erros de ortografia, e isso é tão surreal quanto ouvir uma cor ou enxergar um som.
Outras falsas peculiaridades do Chico Bento:
"Num quero, mãe!" - De acordo com a minha pesquisa, é assim mesmo que qualquer brasileiro fala o "não" em posição fraca.
Sinhora - A maioria dos brasileiros fala assim
Pur - É provável que todos os brasileiros falem assim também. Os portugueses sempre falam.
Comemoramo - É assim que os brasileiros cultos falam. "Comemoramos" com /s/ só é falado na linguagem monitorada.
Bejo - Absolutamente todos os brasileiros falam assim, e uma minoria dos portugueses também. Só em linguagem muito monitorada é que falam /beijo/.
Subé - Em Minas Gerais, é assim que todo mundo fala "souber"; não sei como é em outras regiões. Não falam assim em Portugal, justamente o lugar onde mais se esperaria; a maioria dos portugueses fala /sô-ber/, uma minoria fala /souber/.
Os quadrinhos do Chico Bento também pecam por falta: é comum ler nos balões palavras de registros linguísticos mais altos, como "esta" (os brasileiros só falam "essa") ou "sorriam" (é bem raro um brasileiro usar essa conjugação).
O Maurício de Sousa podia pensar em contratar um consultor linguístico.
Mas quem escreve essas falas não entende de linguística e faz errado: muitas vezes, usam uma grafia alterada para representar um fenômeno fonético que eles pretendem que seja rural, mas que, na verdade, está na fala de todos os brasileiros.
Vamos tomar os quadrinhos acima de exemplo. Quando Chico Bento diz "I eu qui vô sabê? Ocê também feiz prova?", a professora fica ultrajada em ouvir um português tão errado e briga com ele. Mas o que ele falou foi tão errado assim? Vamos descobrir.
I, QUI - As palavras "e" e "que" não são faladas de outra forma na língua padrão da mídia, assim como na fala habitual de todos os brasileiros, exceto em alguns poucos pontos do Sul. Qual é o sentido, então, de escrever "qui" no balão em vez de "que", "di" em vez de "de" ou "mi" em vez de "me"? O que é que se quer representar com isso? Só se for que o personagem não sabe escrever.
VÔ - É aceitável terem escrito assim, porque as pessoas em geral falam /vou/ quando estão lendo um texto. Apesar disso, diga-se que absolutamente TODOS os brasileiros falam /vô/ em fala relaxada, tanto no campo quanto na cidade. A maioria dos portugueses também fala assim (no caso deles, não só na fala relaxada, mas também na mais monitorada).
SABÊ - Na língua padrão se costuma falar /saber/, mas, em linguagem mais espontânea, 100% dos brasileiros falam "sabê". Chico Bento não está sozinho.
OCÊ - Esse aí está justificado. "Ocê" não é tão difundido no Brasil. O mais difundido é "cê".
FEIZ - A grande maioria dos brasileiros fala /feis/, /nóis/, /mais/ as palavras escritas fez, nós, mas, exatamente como o Chico Bento; a exceção fica com algumas regiões no Sudeste e no Sul. Com certeza a professora pronunciou "portuguêis", mas no balão dela está escrito "português". Por que, então, está escrito "feiz" no balão do Chico? Dois pesos e duas medidas.
Conclusão: nos balões do Chico Bento poderia perfeitamente estar escrito "E eu que vou saber? Ocê também fez prova?". Aí é que a gente vê que a reação da professora foi absurda, no sentido original da palavra mesmo: logicamente impossível. Tem que lembrar que ela está ouvindo o Chico Bento falar, não está lendo balões no ar, e a gente não pode ouvir erros de ortografia como "qui" e "vô". Para a professora ter achado que o Chico Bento falou errado, só mesmo ela tendo OUVIDO os erros de ortografia, e isso é tão surreal quanto ouvir uma cor ou enxergar um som.
Outras falsas peculiaridades do Chico Bento:
"Num quero, mãe!" - De acordo com a minha pesquisa, é assim mesmo que qualquer brasileiro fala o "não" em posição fraca.
Pur - É provável que todos os brasileiros falem assim também. Os portugueses sempre falam.
Comemoramo - É assim que os brasileiros cultos falam. "Comemoramos" com /s/ só é falado na linguagem monitorada.
Bejo - Absolutamente todos os brasileiros falam assim, e uma minoria dos portugueses também. Só em linguagem muito monitorada é que falam /beijo/.
Subé - Em Minas Gerais, é assim que todo mundo fala "souber"; não sei como é em outras regiões. Não falam assim em Portugal, justamente o lugar onde mais se esperaria; a maioria dos portugueses fala /sô-ber/, uma minoria fala /souber/.
Os quadrinhos do Chico Bento também pecam por falta: é comum ler nos balões palavras de registros linguísticos mais altos, como "esta" (os brasileiros só falam "essa") ou "sorriam" (é bem raro um brasileiro usar essa conjugação).
O Maurício de Sousa podia pensar em contratar um consultor linguístico.
Vamos SE encontrar ou vamos NOS encontrar?
Uma página com o título "Dicas de português para você não pagar mico" deu a seguinte dica:
É preciso relativizar isso aí. No Brasil, "Vamo se vê", "Vamo se encontrá" são falados em todas classes sociais (ao contrário de "Eu se cuido", que não é). Ninguém sente isso como errado numa situação informal, e é quase só em situações informais que a frase "Vamo se vê" vai ser ouvida em primeiro lugar. Ou não?
Numa situação formal, tudo bem, é preciso respeitar a gramática tradicional e dizer "Vamos nos encontrar". É o "correto", pelo que as pessoas costumam querer dizer com essa palavra. Numa situação mais formal ainda (e só na escrita), deve-se dizer "Encontremo-nos".
Há alguém no Brasil que diz "Vamo nos encontrar" em situação informal? Deve haver, embora o pronome oblíquo "nos" seja muito pouco usado atualmente. De todo modo, esse uso também não deve causar estranhamento. Como diria o outro, ninguém vai desistir do encontro por causa disso tampouco. Vamos se expressar como a gente quer!
Ah, sim. Existe a interpretação (por Marcos Bagno) de que o pronome implícito em "Vamo se vê" não é "nós", e sim "a gente". O oblíquo de "a gente" é "se", mas não existe imperativo específico para esse pronome, o que faria as pessoas recorrerem ao "vamos".
Nunca diga:- Vamos “se ver” amanhã? : o correto é Vamos “nos” ver amanhã? Da mesma forma, você não deve dizer: Eu “se” cuido, mas sim: Eu “me” cuido.Outra página, intitulada "21 lições de português que todo profissional precisa saber", dizia:
Nós nos encontramos e eles se encontram
“Legal, vamos SE encontrar, sim.”
Certo Legal, vamos NOS encontrar, sim.
Se você cometer esse erro é bem provável que alguém desista do encontro. Lembra dos pronomes reflexivos? Vamos lá... Eu me encontro, Tu te encontras, Ele(Você) se encontra, Nós nos encontramos, Vós vos encontrais, Eles(Vocês) se encontram. Da próxima vez, capriche mais no convite, ok?
Numa situação formal, tudo bem, é preciso respeitar a gramática tradicional e dizer "Vamos nos encontrar". É o "correto", pelo que as pessoas costumam querer dizer com essa palavra. Numa situação mais formal ainda (e só na escrita), deve-se dizer "Encontremo-nos".
Há alguém no Brasil que diz "Vamo nos encontrar" em situação informal? Deve haver, embora o pronome oblíquo "nos" seja muito pouco usado atualmente. De todo modo, esse uso também não deve causar estranhamento. Como diria o outro, ninguém vai desistir do encontro por causa disso tampouco. Vamos se expressar como a gente quer!
Ah, sim. Existe a interpretação (por Marcos Bagno) de que o pronome implícito em "Vamo se vê" não é "nós", e sim "a gente". O oblíquo de "a gente" é "se", mas não existe imperativo específico para esse pronome, o que faria as pessoas recorrerem ao "vamos".
Depois do FULANO, vem o SICLANO ou o SICRANO?
Depois do fulano, vem o sicrano, com R. "Siclano" com L está errado. Até existe a palavra ciclano, mas ela é da química e designa um hidrocarboneto cíclico saturado.
Como foi que o povo se meteu a falar "Siclano", então? Desconfio que essa variante tenha origem numa hipercorreção (ou ultracorreção), que quer dizer errar de tanta vontade de acertar. Existem pessoas no Brasil que falam Cráudia em vez de Cláudia e chicrete em vez de chiclete, num fenômeno denominado rotacismo. Tais pessoas sabem que essa forma de falar é estigmatizada na sociedade, considerada feia e própria de gente sem instrução. Sabendo disso, esses falantes mudam o jeito de falar em algumas situações: em vez de falar Cráudia, falam Cláudia, para serem melhor aceitos pelos outros. Seguindo a mesma lógica, trocam Sicrano, que só pode ser coisa de gente ignorante, por Siclano, que, essa sim, deve ser a forma correta. E erram pela vontade de acertar: está aí a hipercorreção.
Prova viva desse fenômeno é a ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffmann. Os pais dela queriam homenagear a princesa e atriz Grace Kelly, mas o pai pensou que a pronúncia "greice" fosse errada, coisa de ignorante. "Corrigiu" então o nome para Gleisi, fazendo uma hipercorreção que a ministra vai ter de carregar até o fim da vida e além. (Fonte: UOL)
Outro exemplo do fenômeno da hipercorreção é o nome Cleusa, forma "corrigida" de Creusa, que, ao que tudo indica, vem de Creúsa, figura da mitologia grega.
Um óculos, um patins
"Você acabou de adquirir um óculos Chilli Beans Pop" é o que se lia no folheto que vinha com o par de óculos. Mais um exemplo de erro de português onde não devia ser admitido?
Depende. Essa é uma interpretação possível. A outra é: se até a Chilli Beans diz "um óculos" em vez de "uns óculos", essa forma já está no ponto de ser aceita como correta. Só há um detalhe que desabona essa conclusão: o resto do folheto inteiro usa "os óculos", mostrando que a Chilli Beans não entrou na onda e que foi só um lapso mesmo.
Por que é que dizer "um óculos" é inaceitável para a norma padrão? Porque se trata de um par de óculos: um óculo de cada lado. Um relógio de ponteiro, por exemplo, é coberto por um óculo de vidro.
Muitos substantivos plurais como esse (chamados tecnicamente de pluralia tantum) foram transformados em singular no Brasil: as calças, as tesouras e as cuecas viraram a calça, a tesoura e a cueca. Essa mudança foi incorporada pela língua padrão. Com óculos e patins, aconteceu um processo diferente e o povo diz "o óculos" e "o patins". Dessa vez, no entanto, as novas formas não entraram na norma padrão, que continua resistente a elas. Em português padrão, se diz "um patim" e "um par de patins".
Por que é que a língua padrão incorporou uma mudança e rejeitou a outra? Não sei. Um mistério a mais no nosso mundo. Mas isso ainda pode mudar um dia.
Depende. Essa é uma interpretação possível. A outra é: se até a Chilli Beans diz "um óculos" em vez de "uns óculos", essa forma já está no ponto de ser aceita como correta. Só há um detalhe que desabona essa conclusão: o resto do folheto inteiro usa "os óculos", mostrando que a Chilli Beans não entrou na onda e que foi só um lapso mesmo.
Por que é que dizer "um óculos" é inaceitável para a norma padrão? Porque se trata de um par de óculos: um óculo de cada lado. Um relógio de ponteiro, por exemplo, é coberto por um óculo de vidro.
Muitos substantivos plurais como esse (chamados tecnicamente de pluralia tantum) foram transformados em singular no Brasil: as calças, as tesouras e as cuecas viraram a calça, a tesoura e a cueca. Essa mudança foi incorporada pela língua padrão. Com óculos e patins, aconteceu um processo diferente e o povo diz "o óculos" e "o patins". Dessa vez, no entanto, as novas formas não entraram na norma padrão, que continua resistente a elas. Em português padrão, se diz "um patim" e "um par de patins".
Por que é que a língua padrão incorporou uma mudança e rejeitou a outra? Não sei. Um mistério a mais no nosso mundo. Mas isso ainda pode mudar um dia.
Exclusivo: os últimos retoques no Acordo Ortográfico
Tive acesso a um anteprojeto do Acordo Ortográfico datado de 1988, dois anos antes da versão que agora tem valor de lei em vários países. Quando comparamos esse protótipo com o texto atual, percebemos pequenas mudanças que revelam um poucochinho da história não contada do Acordo Ortográfico.
O que é exclusivo deste blogue não é o texto do anteprojeto, que pode ser acessado livremente por este link:
O que é exclusivo aqui é a comparação entre os dois textos e a análise da possível motivação dos reformistas.
As alterações que encontrei foram as seguintes:
1 - Propunha-se retirar o acento de dêmos, então obrigatório em Portugal para o presente do subjuntivo do verbo dar. Em contrapartida, o pretérito perfeito do mesmo verbo ganharia um novo acento opcional e se tornaria "démos". Assim, ficaria mais coerente com outras formas do pretérito como "andámos" e "falámos". Devem ter abandonado a proposta porque demos (que seria escrito "démos") nem sempre é falado com E aberto em Portugal: em algumas regiões, o E é fechado. A mudança proposta acentuaria a divergência, em vez de ficar no que é comum. Como acabou a história: o acento em dêmos continuou, mas, de forma mentecapta, foi tornado opcional, já que os brasileiros não o usam. Melhor seria obrigar o Brasil a usá-lo, e assim todos escreveriam igual. É esse, afinal, o propósito de todo o Acordo.
2 - Seria obrigatório acentuar fôrma; na versão final do Acordo, ficou apenas opcional. Esse acento tinha sido abolido tanto da ortografia brasileira quanto da portuguesa. Foi restaurado, indo na contramão da tendência de cortar acentos. Deve ter sido restituído porque, no Brasil, vários dicionários simplesmente desconsideravam a norma oficial e grafavam "fôrma" por convicção de que devia ser assim. O Acordo tornou essa prática oficial, mas não teve a coragem de torná-la obrigatória.
3 - Crêem, dêem, lêem e vêem continuavam com acento circunflexo no primeiro E. Não havia nesse caso divergência entre Brasil e Portugal, o que explica que não tenham inicialmente pensado em fazer a mudança. Foi só mais para o final que decidiram tirar o acento, percebendo que era dispensável. Se você quiser saber por que havia acento nessas palavras (há um motivo), clique aqui.
4 - Vou postar direto o que o texto antigo dizia:
Em certas contrações próprias da linguagem familiar ou popular, como acontece no caso da combinação das preposições a e para (reduzida a pra) com as formas do artigo ou pronome demonstrativo o: ò (de a+o), òs (de a+os). Prò (de pra+o), pròs (de pra+os), prà (de pra+a), pràs (de pra+as).
Ou seja, "para a" viraria "prà" em vez de "pra". Em vez de "vem pra rua", escreveríamos "vem prà rua". Os portugueses já escreviam assim, e os brasileiros passariam a escrever igual.
Por que mudaram de ideia? Devem ter se lembrado da quantidade absurda de erros de crase que os brasileiros cometem ao escrever. Imagine quantos erros a mais haveria se esse novo acento fosse introduzido? Optaram então pelo caminho da simplificação e suprimiram esse trecho.
Antes, o Brasil cederia a Portugal e adotaria um novo acento. No fim, Portugal cedeu ao Brasil e o acento foi implicitamente eliminado.
Nos dois países sempre houve quem ficasse revoltado se pensasse que o seu estivesse cedendo mais. Mas o fato é que, no Acordo Ortográfico, quando foi preciso escolher entre um e outro, escolheu-se sempre o que fosse mais simples, doa a quem doer. O mais simples, no caso, era tirar o acento de "prà" e "prò".
Antes, o Brasil cederia a Portugal e adotaria um novo acento. No fim, Portugal cedeu ao Brasil e o acento foi implicitamente eliminado.
Nos dois países sempre houve quem ficasse revoltado se pensasse que o seu estivesse cedendo mais. Mas o fato é que, no Acordo Ortográfico, quando foi preciso escolher entre um e outro, escolheu-se sempre o que fosse mais simples, doa a quem doer. O mais simples, no caso, era tirar o acento de "prà" e "prò".
5 - Esta mudança foi para pior. Trouxe o item mais confuso do Acordo. Lia-se antes:
Certos compostos, em relação aos quais se perdeu a noção de composição, grafam-se aglutinadamente: girassol, madressilva, pontapé, etc.
Essas três palavras, listadas aí como exceções à regra, já eram escritas assim, nada mudava. O artigo, então, só servia para reconfortar, mostrando o que ficava igual. Não chamava a atenção.
Até que alguém, por motivos até hoje mal-explicados, resolveu adicionar arbitrariamente três palavras à lista, e ficou assim:
Certos compostos, em relação aos quais se perdeu, em certa medida, a noção de composição, grafam-se aglutinadamente: girassol, madressilva, mandachuva, pontapé, paraquedas, paraquedista, etc.
Adicionaram "em certa medida" para relativizar ainda mais o julgamento e mudaram a grafia de palavras escolhidas. O caso de "paraquedista" é justificável, porque "pára-quedista" é uma grafia estranha e sem nexo. Mas o que havia de errado com "manda-chuva"?
O problema mesmo foi manter o "et cetera" no fim do artigo. Isso só cabe quando há um padrão claro do qual podem ser depreendidos novos exemplos. Mas o padrão que havia foi rompido com a inserção das novas palavras. Todos os analistas ficaram confusos, sem ter como saber se havia alguma outra alteração ortográfica arbitrária escondida naquele "etc.". Se "pára-quedas" perdeu o hífen, como fica "pára-brisa"?
(Resposta: as palavras que não foram explicitamente citadas não sofreram alteração. Temos então para-brisa e para-lama.)
(Resposta: as palavras que não foram explicitamente citadas não sofreram alteração. Temos então para-brisa e para-lama.)
6 - Nos artigos dizendo em quais casos se usa letra maiúscula, havia este trecho, que foi eliminado:
Nos nomes que designam domínios do saber, quando tomados em sentido absoluto como equivalendo assim a nomes próprios: a Linguística, a Matemática, a Medicina.
Não imagino qual foi o motivo para tirar este item, mas não foi má mudança. Continuou havendo um item separado dizendo que os nomes de disciplinas são em minúscula ou maiúscula opcionalmente (aula de matemática ou aula de Matemática).
Cariocas que disfarçam o sotaque
Quando um repórter carioca fala no rádio, é comuníssimo ele se esforçar para não chiar o S em fim de sílaba. Devem receber instruções de fonoaudiólogo para falar "sem sotaque". Se você nunca percebeu isso, perceba agora com a jornalista global Christiane Pelajo, que é um exemplo fácil.
Nos primeiros segundos já se verifica a oscilação entre chiar e não chiar. Faço a transcrição para facilitar.
Uso "ch" para representar o som chiado surdo carioca (apesar de nem sempre ser idêntico ao som de chato), "j" para o chiado sonoro (parecido com o som de jato, mas nem sempre idêntico a ele), "ç" para a sibilante alveolar surda (praça) e "z" para a sibilante alveolar sonora (prazo).
(...) não poderia echtar a serviço em São Paulo, e echtava a menoj de quarenta metroç da vítima.
Em Cuiabá foram presoç treij dos segurançaj num shopping que echpancaram um vendedor ambulante.
No trecho começando em 0:46 :
A inflação do meich passado foi a menor em três anoç. O IPCA...
A gente vê que a apresentadora às vezes chia como a carioca que é, e às vezes não. Existe um padrão nessa oscilação? Sim, existe! Para começar, ela nunca deixa de chiar dentro de palavra, como em estar e espancaram. Só ocorre uma exceção no vídeo, Battisti (de Cesare Battisti), que não conta, porque ela está reproduzindo a pronúncia italiana. A prova é que ela também não pronuncia "ti" como \tchi\.
Uma segunda tendência é não chiar o S quando está em fim de enunciado. Isso se vê no segundo trecho, fechado por anos, pronunciado sem chiado. Mês, que está no meio do enunciado, é chiado.
Por fim, a apresentadora tem tendência a não chiar quando está dando ênfase à fala. Essa parece ser a explicação para o não chiado de metros e presos no vídeo.
Essas tendências podem ser sintetizadas numa só: a autora não chia o S quando está atenta e chia quando está relaxada. É que, quando o S está fechando a fala, ele está em foco; o S dentro de palavra chama pouco a atenção e por isso escapa ao controle consciente do falante. Eu mesmo, quando estou imitando um sotaque português ou carioca, também tendo a escorregar nesses S's, só que ao contrário, porque o meu natural é não chiar em palavras como espancar.
Essa análise prova que, como tantos outros jornalistas conterrâneos, Christiane Pelajo pena para disfarçar o sotaque. Mas mesmo aqueles que conseguem eliminar o chiado (ao contrário de Cristiane) podem fracassar no objetivo maior, porque, ao contrário do que eles pensam, o chiado não é o único aspecto do sotaque carioca. Tem outros, que os entregam rapidamente.
Quando se fala no assunto, muito se diz que o dialeto carioca é o padrão falado do Brasil, o sotaque de referência, assim como o sotaque de Lisboa em Portugal, o de Paris na França e o de Oxford na Inglaterra. Ora, como é que pode ser, se os cariocas se esforçam para eliminar o sotaque quando falam no rádio e televisão? O que define a fala padrão é justamente ser considerada a melhor para se ouvir na mídia. O sotaque carioca, pelo visto, não é.
Nos primeiros segundos já se verifica a oscilação entre chiar e não chiar. Faço a transcrição para facilitar.
Uso "ch" para representar o som chiado surdo carioca (apesar de nem sempre ser idêntico ao som de chato), "j" para o chiado sonoro (parecido com o som de jato, mas nem sempre idêntico a ele), "ç" para a sibilante alveolar surda (praça) e "z" para a sibilante alveolar sonora (prazo).
(...) não poderia echtar a serviço em São Paulo, e echtava a menoj de quarenta metroç da vítima.
Em Cuiabá foram presoç treij dos segurançaj num shopping que echpancaram um vendedor ambulante.
No trecho começando em 0:46 :
A inflação do meich passado foi a menor em três anoç. O IPCA...
A gente vê que a apresentadora às vezes chia como a carioca que é, e às vezes não. Existe um padrão nessa oscilação? Sim, existe! Para começar, ela nunca deixa de chiar dentro de palavra, como em estar e espancaram. Só ocorre uma exceção no vídeo, Battisti (de Cesare Battisti), que não conta, porque ela está reproduzindo a pronúncia italiana. A prova é que ela também não pronuncia "ti" como \tchi\.
Uma segunda tendência é não chiar o S quando está em fim de enunciado. Isso se vê no segundo trecho, fechado por anos, pronunciado sem chiado. Mês, que está no meio do enunciado, é chiado.
Por fim, a apresentadora tem tendência a não chiar quando está dando ênfase à fala. Essa parece ser a explicação para o não chiado de metros e presos no vídeo.
Essas tendências podem ser sintetizadas numa só: a autora não chia o S quando está atenta e chia quando está relaxada. É que, quando o S está fechando a fala, ele está em foco; o S dentro de palavra chama pouco a atenção e por isso escapa ao controle consciente do falante. Eu mesmo, quando estou imitando um sotaque português ou carioca, também tendo a escorregar nesses S's, só que ao contrário, porque o meu natural é não chiar em palavras como espancar.
Essa análise prova que, como tantos outros jornalistas conterrâneos, Christiane Pelajo pena para disfarçar o sotaque. Mas mesmo aqueles que conseguem eliminar o chiado (ao contrário de Cristiane) podem fracassar no objetivo maior, porque, ao contrário do que eles pensam, o chiado não é o único aspecto do sotaque carioca. Tem outros, que os entregam rapidamente.
Quando se fala no assunto, muito se diz que o dialeto carioca é o padrão falado do Brasil, o sotaque de referência, assim como o sotaque de Lisboa em Portugal, o de Paris na França e o de Oxford na Inglaterra. Ora, como é que pode ser, se os cariocas se esforçam para eliminar o sotaque quando falam no rádio e televisão? O que define a fala padrão é justamente ser considerada a melhor para se ouvir na mídia. O sotaque carioca, pelo visto, não é.
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