Fora, Collor! Fora, FHC! Fora, Dilma! Seja qual for o presidente, é imprescindível a vírgula, apesar de pouca gente se lembrar dela (como se vê pelas fotos).
A vírgula obrigatória que isola o vocativo pode ser importante para clarear o sentido: "Dilma vai embora" é diferente de "Dilma, vai embora". "Ouça, Dilma" é diferente de "Ouça Dilma".
E no caso concreto? Quem empunhar um cartaz com o dizer "Não à corrupção / Fora Dilma" poderia estar dizendo "Não à corrupção / Exceto Dilma, essa pode roubar".
Tá bom, ninguém nunca ia entender o cartaz dessa forma. E daí? Para de reclamar e segue a regra.
E se...
E se fosse "Abaixo Dilma"? Teria vírgula?
Não. Por que é que é diferente? Porque, nesse caso, "Dilma" não é vocativo. Você não está se dirigindo a ela quando usa a frase, está falando dela na terceira pessoa. Isso faz toda a diferença.
Fora, Dilma! = Dilma, fora!
Abaixo Dilma! =/= Dilma, abaixo!
A prova de que "Dilma" não é vocativo nesse caso é que você poderia reescrever a frase com artigo:
Abaixo a Dilma!
É como a famosa frase: Abaixo a ditadura! Ora, você não está falando com a ditadura, ou está? Está falando DA ditadura.
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Aécio Boladasso pode não ser crime eleitoral, mas é crime ortográfico
O PSDB entrou com um processo e diz que a página "Aécio Boladasso" foi um crime eleitoral (porque foi feito nos servidores de uma prefeitura administrada pelo PT). Pode ou não ter sido crime eleitoral, mas uma coisa é certa: foi um crime ortográfico hediondo, inafiançável e insuscetível de graça ou anistia.
O certo era "BoladaÇo", com C. O sufixo é -aço! Como é que a pessoa que criou a página pode não saber disso? Nunca leu palavras como amigaço, lerdaço, mulheraço, ou Maracanaço? Aliás, em espanhol se escreve Maracanazo, porque, na língua deles, o Z perdeu a sonoridade e passou a ser pronunciado igual a Ç. Então, no século XVIII, os espanhóis acharam que o Ç tinha ficado inútil e o substituíram por Z em todas as palavras (e, por curiosidade, o símbolo embaixo do C é um Z caligráfico) . Por isso, o espanhol é um guia possível para saber se, em português, se escreve com Ç ou com S. Por exemplo, eles escrevem grandazo, e nós grandaço. Por outro lado, escrevem fracaso, e nós fracasso, porque aí não tem o sufixo -aço (ou -azo): vem da palavra italiana "fracasso".
O certo era "BoladaÇo", com C. O sufixo é -aço! Como é que a pessoa que criou a página pode não saber disso? Nunca leu palavras como amigaço, lerdaço, mulheraço, ou Maracanaço? Aliás, em espanhol se escreve Maracanazo, porque, na língua deles, o Z perdeu a sonoridade e passou a ser pronunciado igual a Ç. Então, no século XVIII, os espanhóis acharam que o Ç tinha ficado inútil e o substituíram por Z em todas as palavras (e, por curiosidade, o símbolo embaixo do C é um Z caligráfico) . Por isso, o espanhol é um guia possível para saber se, em português, se escreve com Ç ou com S. Por exemplo, eles escrevem grandazo, e nós grandaço. Por outro lado, escrevem fracaso, e nós fracasso, porque aí não tem o sufixo -aço (ou -azo): vem da palavra italiana "fracasso".
Você fala igualzinho ao Chico Bento e não sabe. Veja só
As falas das histórias do Chico Bento sempre vêm numa escrita fora do comum, a não ser quando o personagem é urbano ou escolarizado (e não necessariamente os dois ao mesmo tempo).
Mas quem escreve essas falas não entende de linguística e faz errado: muitas vezes, usam uma grafia alterada para representar um fenômeno fonético que eles pretendem que seja rural, mas que, na verdade, está na fala de todos os brasileiros.
Vamos tomar os quadrinhos acima de exemplo. Quando Chico Bento diz "I eu qui vô sabê? Ocê também feiz prova?", a professora fica ultrajada em ouvir um português tão errado e briga com ele. Mas o que ele falou foi tão errado assim? Vamos descobrir.
I, QUI - As palavras "e" e "que" não são faladas de outra forma na língua padrão da mídia, assim como na fala habitual de todos os brasileiros, exceto em alguns poucos pontos do Sul. Qual é o sentido, então, de escrever "qui" no balão em vez de "que", "di" em vez de "de" ou "mi" em vez de "me"? O que é que se quer representar com isso? Só se for que o personagem não sabe escrever.
VÔ - É aceitável terem escrito assim, porque as pessoas em geral falam /vou/ quando estão lendo um texto. Apesar disso, diga-se que absolutamente TODOS os brasileiros falam /vô/ em fala relaxada, tanto no campo quanto na cidade. A maioria dos portugueses também fala assim (no caso deles, não só na fala relaxada, mas também na mais monitorada).
SABÊ - Na língua padrão se costuma falar /saber/, mas, em linguagem mais espontânea, 100% dos brasileiros falam "sabê". Chico Bento não está sozinho.
OCÊ - Esse aí está justificado. "Ocê" não é tão difundido no Brasil. O mais difundido é "cê".
FEIZ - A grande maioria dos brasileiros fala /feis/, /nóis/, /mais/ as palavras escritas fez, nós, mas, exatamente como o Chico Bento; a exceção fica com algumas regiões no Sudeste e no Sul. Com certeza a professora pronunciou "portuguêis", mas no balão dela está escrito "português". Por que, então, está escrito "feiz" no balão do Chico? Dois pesos e duas medidas.
Conclusão: nos balões do Chico Bento poderia perfeitamente estar escrito "E eu que vou saber? Ocê também fez prova?". Aí é que a gente vê que a reação da professora foi absurda, no sentido original da palavra mesmo: logicamente impossível. Tem que lembrar que ela está ouvindo o Chico Bento falar, não está lendo balões no ar, e a gente não pode ouvir erros de ortografia como "qui" e "vô". Para a professora ter achado que o Chico Bento falou errado, só mesmo ela tendo OUVIDO os erros de ortografia, e isso é tão surreal quanto ouvir uma cor ou enxergar um som.
Outras falsas peculiaridades do Chico Bento:
"Num quero, mãe!" - De acordo com a minha pesquisa, é assim mesmo que qualquer brasileiro fala o "não" em posição fraca.
Sinhora - A maioria dos brasileiros fala assim
Pur - É provável que todos os brasileiros falem assim também. Os portugueses sempre falam.
Comemoramo - É assim que os brasileiros cultos falam. "Comemoramos" com /s/ só é falado na linguagem monitorada.
Bejo - Absolutamente todos os brasileiros falam assim, e uma minoria dos portugueses também. Só em linguagem muito monitorada é que falam /beijo/.
Subé - Em Minas Gerais, é assim que todo mundo fala "souber"; não sei como é em outras regiões. Não falam assim em Portugal, justamente o lugar onde mais se esperaria; a maioria dos portugueses fala /sô-ber/, uma minoria fala /souber/.
Os quadrinhos do Chico Bento também pecam por falta: é comum ler nos balões palavras de registros linguísticos mais altos, como "esta" (os brasileiros só falam "essa") ou "sorriam" (é bem raro um brasileiro usar essa conjugação).
O Maurício de Sousa podia pensar em contratar um consultor linguístico.
Mas quem escreve essas falas não entende de linguística e faz errado: muitas vezes, usam uma grafia alterada para representar um fenômeno fonético que eles pretendem que seja rural, mas que, na verdade, está na fala de todos os brasileiros.
Vamos tomar os quadrinhos acima de exemplo. Quando Chico Bento diz "I eu qui vô sabê? Ocê também feiz prova?", a professora fica ultrajada em ouvir um português tão errado e briga com ele. Mas o que ele falou foi tão errado assim? Vamos descobrir.
I, QUI - As palavras "e" e "que" não são faladas de outra forma na língua padrão da mídia, assim como na fala habitual de todos os brasileiros, exceto em alguns poucos pontos do Sul. Qual é o sentido, então, de escrever "qui" no balão em vez de "que", "di" em vez de "de" ou "mi" em vez de "me"? O que é que se quer representar com isso? Só se for que o personagem não sabe escrever.
VÔ - É aceitável terem escrito assim, porque as pessoas em geral falam /vou/ quando estão lendo um texto. Apesar disso, diga-se que absolutamente TODOS os brasileiros falam /vô/ em fala relaxada, tanto no campo quanto na cidade. A maioria dos portugueses também fala assim (no caso deles, não só na fala relaxada, mas também na mais monitorada).
SABÊ - Na língua padrão se costuma falar /saber/, mas, em linguagem mais espontânea, 100% dos brasileiros falam "sabê". Chico Bento não está sozinho.
OCÊ - Esse aí está justificado. "Ocê" não é tão difundido no Brasil. O mais difundido é "cê".
FEIZ - A grande maioria dos brasileiros fala /feis/, /nóis/, /mais/ as palavras escritas fez, nós, mas, exatamente como o Chico Bento; a exceção fica com algumas regiões no Sudeste e no Sul. Com certeza a professora pronunciou "portuguêis", mas no balão dela está escrito "português". Por que, então, está escrito "feiz" no balão do Chico? Dois pesos e duas medidas.
Conclusão: nos balões do Chico Bento poderia perfeitamente estar escrito "E eu que vou saber? Ocê também fez prova?". Aí é que a gente vê que a reação da professora foi absurda, no sentido original da palavra mesmo: logicamente impossível. Tem que lembrar que ela está ouvindo o Chico Bento falar, não está lendo balões no ar, e a gente não pode ouvir erros de ortografia como "qui" e "vô". Para a professora ter achado que o Chico Bento falou errado, só mesmo ela tendo OUVIDO os erros de ortografia, e isso é tão surreal quanto ouvir uma cor ou enxergar um som.
Outras falsas peculiaridades do Chico Bento:
"Num quero, mãe!" - De acordo com a minha pesquisa, é assim mesmo que qualquer brasileiro fala o "não" em posição fraca.
Pur - É provável que todos os brasileiros falem assim também. Os portugueses sempre falam.
Comemoramo - É assim que os brasileiros cultos falam. "Comemoramos" com /s/ só é falado na linguagem monitorada.
Bejo - Absolutamente todos os brasileiros falam assim, e uma minoria dos portugueses também. Só em linguagem muito monitorada é que falam /beijo/.
Subé - Em Minas Gerais, é assim que todo mundo fala "souber"; não sei como é em outras regiões. Não falam assim em Portugal, justamente o lugar onde mais se esperaria; a maioria dos portugueses fala /sô-ber/, uma minoria fala /souber/.
Os quadrinhos do Chico Bento também pecam por falta: é comum ler nos balões palavras de registros linguísticos mais altos, como "esta" (os brasileiros só falam "essa") ou "sorriam" (é bem raro um brasileiro usar essa conjugação).
O Maurício de Sousa podia pensar em contratar um consultor linguístico.
Vamos SE encontrar ou vamos NOS encontrar?
Uma página com o título "Dicas de português para você não pagar mico" deu a seguinte dica:
É preciso relativizar isso aí. No Brasil, "Vamo se vê", "Vamo se encontrá" são falados em todas classes sociais (ao contrário de "Eu se cuido", que não é). Ninguém sente isso como errado numa situação informal, e é quase só em situações informais que a frase "Vamo se vê" vai ser ouvida em primeiro lugar. Ou não?
Numa situação formal, tudo bem, é preciso respeitar a gramática tradicional e dizer "Vamos nos encontrar". É o "correto", pelo que as pessoas costumam querer dizer com essa palavra. Numa situação mais formal ainda (e só na escrita), deve-se dizer "Encontremo-nos".
Há alguém no Brasil que diz "Vamo nos encontrar" em situação informal? Deve haver, embora o pronome oblíquo "nos" seja muito pouco usado atualmente. De todo modo, esse uso também não deve causar estranhamento. Como diria o outro, ninguém vai desistir do encontro por causa disso tampouco. Vamos se expressar como a gente quer!
Ah, sim. Existe a interpretação (por Marcos Bagno) de que o pronome implícito em "Vamo se vê" não é "nós", e sim "a gente". O oblíquo de "a gente" é "se", mas não existe imperativo específico para esse pronome, o que faria as pessoas recorrerem ao "vamos".
Nunca diga:- Vamos “se ver” amanhã? : o correto é Vamos “nos” ver amanhã? Da mesma forma, você não deve dizer: Eu “se” cuido, mas sim: Eu “me” cuido.Outra página, intitulada "21 lições de português que todo profissional precisa saber", dizia:
Nós nos encontramos e eles se encontram
“Legal, vamos SE encontrar, sim.”
Certo Legal, vamos NOS encontrar, sim.
Se você cometer esse erro é bem provável que alguém desista do encontro. Lembra dos pronomes reflexivos? Vamos lá... Eu me encontro, Tu te encontras, Ele(Você) se encontra, Nós nos encontramos, Vós vos encontrais, Eles(Vocês) se encontram. Da próxima vez, capriche mais no convite, ok?
Numa situação formal, tudo bem, é preciso respeitar a gramática tradicional e dizer "Vamos nos encontrar". É o "correto", pelo que as pessoas costumam querer dizer com essa palavra. Numa situação mais formal ainda (e só na escrita), deve-se dizer "Encontremo-nos".
Há alguém no Brasil que diz "Vamo nos encontrar" em situação informal? Deve haver, embora o pronome oblíquo "nos" seja muito pouco usado atualmente. De todo modo, esse uso também não deve causar estranhamento. Como diria o outro, ninguém vai desistir do encontro por causa disso tampouco. Vamos se expressar como a gente quer!
Ah, sim. Existe a interpretação (por Marcos Bagno) de que o pronome implícito em "Vamo se vê" não é "nós", e sim "a gente". O oblíquo de "a gente" é "se", mas não existe imperativo específico para esse pronome, o que faria as pessoas recorrerem ao "vamos".
Veja o quanto Rachel Sheherazade mudou o sotaque depois de ficar famosa
Não é desde sempre que Rachel Sheherazade luta contra o sotaque; isso só começou de uns tempos para cá. Quando ela ainda não era famosa e trabalhava na TV Tambaú (afiliada do SBT em João Pessoa), ela falava com um sotaque nordestino muito mais solto. Vejam o vídeo que catapultou ela para a fama:
Os exemplos mais salientes que a gente ouve aí são a palatalização de /s/ antes de /t/ (feshtas, reshto) e a abertura das vogais pretônicas (Ó-linda, proté-ção). Por contraexemplo, ela palataliza as oclusivas dentais (fala tchi em vez de ti), o que não é típico da Paraíba.
"O que vemos são muitos jornalistas do eixo Rio-São Paulo em outras partes do País ancorando telejornais. Nunca fiquei sabendo de um jornalista da Paraíba comandando um jornal nacional em horário nobre."Numa entrevista, perguntaram explicitamente a Rachel Sheherazade se ela controlava o sotaque para falar na televisão (clique para acessar o vídeo e comece a 18'00''). A resposta foi essa:
Quando eu comecei a fazer TV, a primeira coisa que me disseram é o seguinte: quem tem que chamar a atenção é a notícia. Não é teu cabelo, não é tua maquiagem, não é a tua roupa nem o brinco que cê usa, e nem a forma como você fala. Então você tem que falar de uma maneira... uma forma neutra. Então, eu sempre busquei neutralizar o sotaque, desde a Paraíba já.Algumas pessoas diriam que fazer jornalistas nordestinos disfarçarem o sotaque é "preconceito linguístico". É uma interpretação possível, mas quem pensa assim tem o consolo de saber que a mesma instrução é dada a jornalistas de todas as regiões, não só do Nordeste. William Bonner é paulista, mas nem parece, porque ele também "neutralizou" o sotaque. Fátima Bernardes idem (ela é carioca).
Um óculos, um patins
"Você acabou de adquirir um óculos Chilli Beans Pop" é o que se lia no folheto que vinha com o par de óculos. Mais um exemplo de erro de português onde não devia ser admitido?
Depende. Essa é uma interpretação possível. A outra é: se até a Chilli Beans diz "um óculos" em vez de "uns óculos", essa forma já está no ponto de ser aceita como correta. Só há um detalhe que desabona essa conclusão: o resto do folheto inteiro usa "os óculos", mostrando que a Chilli Beans não entrou na onda e que foi só um lapso mesmo.
Por que é que dizer "um óculos" é inaceitável para a norma padrão? Porque se trata de um par de óculos: um óculo de cada lado. Um relógio de ponteiro, por exemplo, é coberto por um óculo de vidro.
Muitos substantivos plurais como esse (chamados tecnicamente de pluralia tantum) foram transformados em singular no Brasil: as calças, as tesouras e as cuecas viraram a calça, a tesoura e a cueca. Essa mudança foi incorporada pela língua padrão. Com óculos e patins, aconteceu um processo diferente e o povo diz "o óculos" e "o patins". Dessa vez, no entanto, as novas formas não entraram na norma padrão, que continua resistente a elas. Em português padrão, se diz "um patim" e "um par de patins".
Por que é que a língua padrão incorporou uma mudança e rejeitou a outra? Não sei. Um mistério a mais no nosso mundo. Mas isso ainda pode mudar um dia.
Depende. Essa é uma interpretação possível. A outra é: se até a Chilli Beans diz "um óculos" em vez de "uns óculos", essa forma já está no ponto de ser aceita como correta. Só há um detalhe que desabona essa conclusão: o resto do folheto inteiro usa "os óculos", mostrando que a Chilli Beans não entrou na onda e que foi só um lapso mesmo.
Por que é que dizer "um óculos" é inaceitável para a norma padrão? Porque se trata de um par de óculos: um óculo de cada lado. Um relógio de ponteiro, por exemplo, é coberto por um óculo de vidro.
Muitos substantivos plurais como esse (chamados tecnicamente de pluralia tantum) foram transformados em singular no Brasil: as calças, as tesouras e as cuecas viraram a calça, a tesoura e a cueca. Essa mudança foi incorporada pela língua padrão. Com óculos e patins, aconteceu um processo diferente e o povo diz "o óculos" e "o patins". Dessa vez, no entanto, as novas formas não entraram na norma padrão, que continua resistente a elas. Em português padrão, se diz "um patim" e "um par de patins".
Por que é que a língua padrão incorporou uma mudança e rejeitou a outra? Não sei. Um mistério a mais no nosso mundo. Mas isso ainda pode mudar um dia.
Por que é que POKÉMON tem acento?
Talvez você já tenha se perguntado isso quando era criança. Por que é que "Pokémon" tem acento no E, se a vogal tônica é o O? Por que é que não é simplesmente "Pokemon"?
A resposta é que, ao decidir como escreveriam essa marca japonesa no alfabeto latino (o nosso alfabeto), tinham em mente o inglês, não o português.
Como assim? Todo mundo sabe que o inglês não tem acentos.
Mais ou menos. O inglês tem muitas palavras derivadas do francês que podem ser escritas com acento, como cliché, café, élite, résumé. Na maior parte do tempo, eles acabam abandonando o sinal porque não acham necessário: cliche, cafe, elite. Mas há uma tendência de conservar o acento quando pode resolver dúvidas de pronúncia. Um exemplo excelente é résumé. Em francês a palavra tem dois acentos, mas em inglês escrevem só com um: resumé (pronunciado /RÉ-zyu-mei/). Por quê? Porque o primeiro é desnecessário, mas o que fica no fim da palavra tem uma função: diferencia a palavra de resume, cujo segundo E é mudo (/rɪ-ZYUM/). Clique no quadradinho para ouvir a diferença de pronúncia:
De tanto usar esses acentos em palavras francesas, os falantes de inglês também passaram a usá-los em palavras de outras línguas com a mesma simples função, a de mostrar que o E não é mudo. Para ficar no japonês, um exemplo é saké, derivada do japonês sake (que nós grafamos saquê) e pronunciada /SA-ki/. O acento foi posto no E para diferenciar de sake /seik/, em que o E não é pronunciado.
Voltando para Pokémon
Pokémon ganhou acento agudo para indicar aos falantes de inglês que o E não é mudo. Ou seja, para evitar que falassem /'powk,mon/. Além disso, o acento tem a mesma função que tem em francês: abrir o timbre do E. Ou seja, deve-se ler /'powkei,mon/, e não /'powki,mon/. (Usei a vírgula para indicar o acento tônico secundário).
Para nós, falantes de português, o acento poderia ter o efeito oposto e levar o público a pronunciar errado. Mas, apesar do acento, todos nós aprendemos a falar o nome corretamente, à maneira japonesa. Clique para ouvir.
Cariocas que disfarçam o sotaque
Quando um repórter carioca fala no rádio, é comuníssimo ele se esforçar para não chiar o S em fim de sílaba. Devem receber instruções de fonoaudiólogo para falar "sem sotaque". Se você nunca percebeu isso, perceba agora com a jornalista global Christiane Pelajo, que é um exemplo fácil.
Nos primeiros segundos já se verifica a oscilação entre chiar e não chiar. Faço a transcrição para facilitar.
Uso "ch" para representar o som chiado surdo carioca (apesar de nem sempre ser idêntico ao som de chato), "j" para o chiado sonoro (parecido com o som de jato, mas nem sempre idêntico a ele), "ç" para a sibilante alveolar surda (praça) e "z" para a sibilante alveolar sonora (prazo).
(...) não poderia echtar a serviço em São Paulo, e echtava a menoj de quarenta metroç da vítima.
Em Cuiabá foram presoç treij dos segurançaj num shopping que echpancaram um vendedor ambulante.
No trecho começando em 0:46 :
A inflação do meich passado foi a menor em três anoç. O IPCA...
A gente vê que a apresentadora às vezes chia como a carioca que é, e às vezes não. Existe um padrão nessa oscilação? Sim, existe! Para começar, ela nunca deixa de chiar dentro de palavra, como em estar e espancaram. Só ocorre uma exceção no vídeo, Battisti (de Cesare Battisti), que não conta, porque ela está reproduzindo a pronúncia italiana. A prova é que ela também não pronuncia "ti" como \tchi\.
Uma segunda tendência é não chiar o S quando está em fim de enunciado. Isso se vê no segundo trecho, fechado por anos, pronunciado sem chiado. Mês, que está no meio do enunciado, é chiado.
Por fim, a apresentadora tem tendência a não chiar quando está dando ênfase à fala. Essa parece ser a explicação para o não chiado de metros e presos no vídeo.
Essas tendências podem ser sintetizadas numa só: a autora não chia o S quando está atenta e chia quando está relaxada. É que, quando o S está fechando a fala, ele está em foco; o S dentro de palavra chama pouco a atenção e por isso escapa ao controle consciente do falante. Eu mesmo, quando estou imitando um sotaque português ou carioca, também tendo a escorregar nesses S's, só que ao contrário, porque o meu natural é não chiar em palavras como espancar.
Essa análise prova que, como tantos outros jornalistas conterrâneos, Christiane Pelajo pena para disfarçar o sotaque. Mas mesmo aqueles que conseguem eliminar o chiado (ao contrário de Cristiane) podem fracassar no objetivo maior, porque, ao contrário do que eles pensam, o chiado não é o único aspecto do sotaque carioca. Tem outros, que os entregam rapidamente.
Quando se fala no assunto, muito se diz que o dialeto carioca é o padrão falado do Brasil, o sotaque de referência, assim como o sotaque de Lisboa em Portugal, o de Paris na França e o de Oxford na Inglaterra. Ora, como é que pode ser, se os cariocas se esforçam para eliminar o sotaque quando falam no rádio e televisão? O que define a fala padrão é justamente ser considerada a melhor para se ouvir na mídia. O sotaque carioca, pelo visto, não é.
Nos primeiros segundos já se verifica a oscilação entre chiar e não chiar. Faço a transcrição para facilitar.
Uso "ch" para representar o som chiado surdo carioca (apesar de nem sempre ser idêntico ao som de chato), "j" para o chiado sonoro (parecido com o som de jato, mas nem sempre idêntico a ele), "ç" para a sibilante alveolar surda (praça) e "z" para a sibilante alveolar sonora (prazo).
(...) não poderia echtar a serviço em São Paulo, e echtava a menoj de quarenta metroç da vítima.
Em Cuiabá foram presoç treij dos segurançaj num shopping que echpancaram um vendedor ambulante.
No trecho começando em 0:46 :
A inflação do meich passado foi a menor em três anoç. O IPCA...
A gente vê que a apresentadora às vezes chia como a carioca que é, e às vezes não. Existe um padrão nessa oscilação? Sim, existe! Para começar, ela nunca deixa de chiar dentro de palavra, como em estar e espancaram. Só ocorre uma exceção no vídeo, Battisti (de Cesare Battisti), que não conta, porque ela está reproduzindo a pronúncia italiana. A prova é que ela também não pronuncia "ti" como \tchi\.
Uma segunda tendência é não chiar o S quando está em fim de enunciado. Isso se vê no segundo trecho, fechado por anos, pronunciado sem chiado. Mês, que está no meio do enunciado, é chiado.
Por fim, a apresentadora tem tendência a não chiar quando está dando ênfase à fala. Essa parece ser a explicação para o não chiado de metros e presos no vídeo.
Essas tendências podem ser sintetizadas numa só: a autora não chia o S quando está atenta e chia quando está relaxada. É que, quando o S está fechando a fala, ele está em foco; o S dentro de palavra chama pouco a atenção e por isso escapa ao controle consciente do falante. Eu mesmo, quando estou imitando um sotaque português ou carioca, também tendo a escorregar nesses S's, só que ao contrário, porque o meu natural é não chiar em palavras como espancar.
Essa análise prova que, como tantos outros jornalistas conterrâneos, Christiane Pelajo pena para disfarçar o sotaque. Mas mesmo aqueles que conseguem eliminar o chiado (ao contrário de Cristiane) podem fracassar no objetivo maior, porque, ao contrário do que eles pensam, o chiado não é o único aspecto do sotaque carioca. Tem outros, que os entregam rapidamente.
Quando se fala no assunto, muito se diz que o dialeto carioca é o padrão falado do Brasil, o sotaque de referência, assim como o sotaque de Lisboa em Portugal, o de Paris na França e o de Oxford na Inglaterra. Ora, como é que pode ser, se os cariocas se esforçam para eliminar o sotaque quando falam no rádio e televisão? O que define a fala padrão é justamente ser considerada a melhor para se ouvir na mídia. O sotaque carioca, pelo visto, não é.
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