Mostrando postagens com marcador redução vocálica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador redução vocálica. Mostrar todas as postagens

Você fala igualzinho ao Chico Bento e não sabe. Veja só

As falas das histórias do Chico Bento sempre vêm numa escrita fora do comum, a não ser quando o personagem é urbano ou escolarizado (e não necessariamente os dois ao mesmo tempo).

Mas quem escreve essas falas não entende de linguística e faz errado: muitas vezes, usam uma grafia alterada para representar um fenômeno fonético que eles pretendem que seja rural, mas que, na verdade, está na fala de todos os brasileiros. 

Vamos tomar os quadrinhos acima de exemplo. Quando Chico Bento diz "I eu qui vô sabê? Ocê também feiz prova?", a professora fica ultrajada em ouvir um português tão errado e briga com ele. Mas o que ele falou foi tão errado assim? Vamos descobrir.

I, QUI - As palavras "e" e "que" não são faladas de outra forma na língua padrão da mídia, assim como na fala habitual de todos os brasileiros, exceto em alguns poucos pontos do Sul. Qual é o sentido, então, de escrever "qui" no balão em vez de "que", "di" em vez de "de" ou "mi" em vez de "me"? O que é que se quer representar com isso? Só se for que o personagem não sabe escrever. 

 - É aceitável terem escrito assim, porque as pessoas em geral falam /vou/ quando estão lendo um texto. Apesar disso, diga-se que absolutamente TODOS os brasileiros falam /vô/ em fala relaxada, tanto no campo quanto na cidade. A maioria dos portugueses também fala assim (no caso deles, não só na fala relaxada, mas também na mais monitorada).

SABÊ - Na língua padrão se costuma falar /saber/, mas, em linguagem mais espontânea, 100% dos brasileiros falam "sabê". Chico Bento não está sozinho.

OCÊ - Esse aí está justificado. "Ocê" não é tão difundido no Brasil. O mais difundido é "cê". 

FEIZ - A grande maioria dos brasileiros fala /feis/, /nóis/, /mais/ as palavras escritas fez, nós, mas, exatamente como o Chico Bento; a exceção fica com algumas regiões no Sudeste e no Sul. Com certeza a professora pronunciou "portuguêis", mas no balão dela está escrito "português". Por que, então, está escrito "feiz" no balão do Chico? Dois pesos e duas medidas.

Conclusão: nos balões do Chico Bento poderia perfeitamente estar escrito "E eu que vou saber? Ocê também fez prova?". Aí é que a gente vê que a reação da professora foi absurda, no sentido original da palavra mesmo: logicamente impossível. Tem que lembrar que ela está ouvindo o Chico Bento falar, não está lendo balões no ar, e a gente não pode ouvir erros de ortografia como "qui" e "vô". Para a professora ter achado que o Chico Bento falou errado, só mesmo ela tendo OUVIDO os erros de ortografia, e isso é tão surreal quanto ouvir uma cor ou enxergar um som.   

Outras falsas peculiaridades do Chico Bento:


 "Num quero, mãe!" - De acordo com a minha pesquisa, é assim mesmo que qualquer brasileiro fala o "não" em posição fraca. 
Sinhora - A maioria dos brasileiros fala assim
Pur - É provável que todos os brasileiros falem assim também. Os portugueses sempre falam.
Comemoramo - É assim que os brasileiros cultos falam. "Comemoramos" com /s/ só é falado na linguagem monitorada. 
Bejo - Absolutamente todos os brasileiros falam assim, e uma minoria dos portugueses também. Só em linguagem muito monitorada é que falam /beijo/.
Subé - Em Minas Gerais, é assim que todo mundo fala "souber"; não sei como é em outras regiões. Não falam assim em Portugal, justamente o lugar onde mais se esperaria; a maioria dos portugueses fala /sô-ber/, uma minoria fala /souber/. 

Os quadrinhos do Chico Bento também pecam por falta: é comum ler nos balões palavras de registros linguísticos mais altos, como "esta" (os brasileiros só falam "essa") ou "sorriam" (é bem raro um brasileiro usar essa conjugação).

O Maurício de Sousa podia pensar em contratar um consultor linguístico. 

Veja o quanto Rachel Sheherazade mudou o sotaque depois de ficar famosa



Nesse vídeo, a famosa jornalista Rachel Sheherazade pronuncia a palavra "blocão" de um jeito estranho, reparem. Ela pronuncia a palavra como /blô-cão/. Que eu saiba, todos os brasileiros pronunciam /bló-cão/, com o O aberto.
A explicação deve ser que Sheherazade faz um esforço consciente para trocar o seu sotaque paraibano natural por um sotaque "neutro" televisivo. Uma das regras mentais que ela adota para falar como os jornalistas do Sul e Sudeste é sempre trocar as vogais /é/ e /ó/ em sílaba pretônica por /ê/ e /ô/. Só que era para essa regra ter exceções, como o caso da palavra blocão. Ao falar /blô-cão/, a jornalista erra de tanta vontade de acertar, um fenômeno que a gente chama de hipercorreção ou ultracorreção.

Não é desde sempre que Rachel Sheherazade luta contra o sotaque; isso só começou de uns tempos para cá. Quando ela ainda não era famosa e trabalhava na TV Tambaú (afiliada do SBT em João Pessoa), ela falava com um sotaque nordestino muito mais solto. Vejam o vídeo que catapultou ela para a fama:
Os exemplos mais salientes que a gente ouve aí são a palatalização de /s/ antes de /t/ (feshtas, reshto) e a abertura das vogais pretônicas (Ó-linda, proté-ção). Por contraexemplo, ela palataliza as oclusivas dentais (fala tchi em vez de ti), o que não é típico da Paraíba.

Tendo ganhado projeção nacional, a jornalista foi convidada por Sílvio Santos a ir para a matriz do SBT em São Paulo. Lá, passou a apresentar o jornal SBT Brasil e fazer comentários de ampla repercussão nacional. É bem provável que, a partir desse momento, ela tenha recebido a orientação de apagar o sotaque por completo. Afinal, como ela mesma disse uma vez: 
"O que vemos são muitos jornalistas do eixo Rio-São Paulo em outras partes do País ancorando telejornais. Nunca fiquei sabendo de um jornalista da Paraíba comandando um jornal nacional em horário nobre."
Numa entrevista, perguntaram explicitamente a Rachel Sheherazade se ela controlava o sotaque para falar na televisão (clique para acessar o vídeo e comece a 18'00''). A resposta foi essa: 
Quando eu comecei a fazer TV, a primeira coisa que me disseram é o seguinte: quem tem que chamar a atenção é a notícia. Não é teu cabelo, não é tua maquiagem, não é a tua roupa nem o brinco que cê usa, e nem a forma como você fala. Então você tem que falar de uma maneira... uma forma neutra. Então, eu sempre busquei neutralizar o sotaque, desde a Paraíba já.
 Algumas pessoas diriam que fazer jornalistas nordestinos disfarçarem o sotaque é "preconceito linguístico". É uma interpretação possível, mas quem pensa assim tem o consolo de saber que a mesma instrução é dada a jornalistas de todas as regiões, não só do Nordeste. William Bonner é paulista, mas nem parece, porque ele também "neutralizou" o sotaque. Fátima Bernardes idem (ela é carioca). 

BUCETA ou BOCETA? Qual é o certo?

É bOceta que se escreve. É muito comum ver a palavra escrita errada, como ocorre com todos os palavrões que dão margem a dúvida, porque é raro ler a palavra e porque quem a usa costuma estar em situação de informalidade e desleixo. 

Caso você tenha nascido ontem, boceta no Brasil é um termo chulo que quer dizer vagina ou vulva. Trata-se de uma metáfora sobre um significado original: caixinha oval ou oblonga, principalmente uma utilizada para guardar fumo ou rapé. Machado de Assis ainda usava a palavra com esse sentido. Em Portugal até hoje é assim, tanto que dizem "boceta de Pandora" em vez de "caixa de Pandora". 

Agora as curiosidades: a palavra deriva do latim buxis (caixa) com diminutivo. Buxis também deu no inglês box e no francês boîte. Esse último veio a entrar no português como "boate". 

Cumpre notar que boceta é um exemplo de como a língua, assim como a moda, vai e volta. Quando o latim foi virando português, a vogal /u/ de buxis se abriu em /o/ e a palavra acabou ficando boceta. Séculos mais tarde, dentro do português mesmo, uma outra transformação aconteceu e o /o/ voltou a ser pronunciado /u/, assim como aconteceu em outras palavras. Só que, dessa vez, a escrita não mudou para acompanhar a pronúncia: a gente continua escrevendo boceta com O, assim como faziam os nossos antepassados. 


Fudeu ou fodeu? Fudido ou fodido? Fudendo ou fodendo?

Neste blog, os textos sobre palavrões são os que fazem mais sucesso. 
Resposta curta: O certo é foder, fodeu, fodido, fodendo. As versões com U são erros.


Resposta longa: 
O negócio é o seguinte. O radical do verbo foder é fod-: 
fod + ER       = foder
fod + o          = fodo
fod + e          = fode
fod + EMOS = fodemos
fod + em       = fodem
fod + I           = fodi
fod + EU       = fodeu
fod + ERAM  = foderam
fod + ESSE   = fodesse
fod + a           = foda
fod + am        = fodam
fod + IDO       = fodido
fod + ENDO   = fodendo

Séculos atrás, o O de todas essas palavras sempre tinha som de O mesmo. Até que sobreveio uma mudança linguística e o O passou a ter som de U. Mas atenção! Isso não afetou todas as palavras! Só aquelas nas quais o O era átono (fraco). Quando o O era tônico, continuou tendo o som que sempre tinha. 

As palavras azuis da lista são aquelas onde o O do radical é tônico. São as chamadas formas rizotônicas. Elas têm esse nome porque "rizo" quer dizer raiz, e a raiz no caso é "fod-". (A própria palavra "radical", aliás, originalmente quer dizer "relativo a raiz".) As palavras rizotônicas são aquelas em que o O continuou com som de O e que, por isso, não são escritas errado por ninguém. Já viu alguém escrever "fuda-se"?

As palavras vermelhas da lista são aquelas onde o O do radical é átono. São as chamadas formas arrizotônicas. Nelas, a raiz fod- perde a tonicidade, e o O, fraco, passou a ter som de U. A mudança de som não se refletiu na escrita, a não ser para as pessoas que escrevem errado (*fudeu, *fudido, etc.).

O que a gente acabou de ver para o verbo foder vale identicamente para, por exemplo, o verbo comer, pronunciado como se fosse escrito "cumer". Comeu é uma forma arrizotônica, come é uma forma rizotônica. Mas ninguém escreve *cumeu, *cumido, *cumendo. Por que, então, é diferente para foder? Por que é que a gente vê tanto *fudeu, *fudido, *fudendo?

Você já deve saber a resposta: foder é uma palavra tabu, e por isso não aparece em muitos textos de respeito, ortograficamente cuidados. Aí os brasileiros não têm tanta oportunidade de ver a escrita correta, ao contrário do que acontece para comer, que a gente lê em todo lugar.

Digo "brasileiros" porque já vi portugueses na internet estranhando o hábito brasileiro de escrever "fuder". Talvez eles estejam mais acostumados a representar /u/ com a letra O, e com isso aceitem mais naturalmente a escrita correta foder.


A origem

Uma curiosidade é que a palavra foder vem do latim futuere. Isso indica que o som /u/ do latim virou /o/ no português (foder), e, mais tarde, voltou a ser /u/, como é hoje (mas, dessa vez, sem que a escrita acompanhasse a mudança). A língua vai e volta. 

Como é que se escreve: VIADO ou VEADO?

Escrever "viado" está sempre errado, a não ser que você queira se referir a um "tecido de lã, com riscas ou veios". É assim que o dicionário Houaiss define o adjetivo e substantivo viado, datado do ano 1340.

A palavra chula veado, usada em referência a homossexuais masculinos, apareceu como sentido figurado do nome do animal. Em Portugal e na maior parte do Brasil (se não em todo ele), a letra E da palavra é pronunciada como se fosse I. Essa transformação de /e/ átono em /i/ é especialmente comum em português quando o E vem antes de vogal: veado, passearcontemporâneo, leão, compreender


Nem por isso se deve escrever a palavra como "viado", que é um erro de ortografia. O porquê desse erro ser tão comum é explicável: nós ouvimos palavrões o tempo todo, mas quase nunca os lemos. Em consequência, pouca gente aprende a escrita correta. Isso explica por que vemos tantos palavrões escritos errados nas pichações escolares e nas seções de comentários na internet. Muita gente estudada escreve *cú ou *buceta, quando o correto é cu e boceta. É que essas pessoas já leram muitos livros, mas nenhum deles continha essas palavras. 


Por que então a palavra veado no sentido de cervídeo não é jamais escrita errada? Já há até uma convenção informal: veado é o bicho, *viado é o homem. Já grafaram *viado até em legendas de filme. E existe gente que insiste que o certo é "viado" porque a origem da palavra seria desviado ou transviado. Como nunca houve evidência disso, podemos dizer: é FALSO. Isso se chama etimologia popular. Quando a etimologia proposta soa óbvia demais, quase sempre se encaixa nisso. É o mesmo caso de forró, que, reza a lenda, viria de "for all". Nunca vamos saber quem inventou essas bobagens, porque poderia ser qualquer pessoa; não é preciso ter estudado nada para fazer conexões superficiais como essas. 


Então por que a palavra veado costuma ser escrita certo quando o sentido é de cervídeo? Porque é mais comum ler a palavra com esse sentido em livros e revistas, que têm revisão ortográfica e jamais errariam a grafia de veado. Em contraste, quando se  o insulto tabu, é quase sempre uma situação informal: seções de comentários na internet, carteiras escolares, boxes de banheiro... Nessas situações, pouca gente toma cuidado com a ortografia e escreve *viado sem medo.


Mas mesmo quem tenta escrever corretamente lê *viado escrito sempre assim na pena dos xingadores e pode seguir o exemplo, achando que é o correto. Imitações desse tipo é que criam uma ortografia. "Veado bicho, viado homem" virou uma espécie de convenção, tanto que já foi flagrada em escrita ortograficamente cuidada. Mas é errada.  Não se trata só de um erro de ortografia, que na língua tem potencial para virar correto um dia. É também um erro objetivo: não são duas palavras diferentes, mas uma só. O certo é sempre veado, a não ser que você esteja se referindo a um tecido de lã com riscas ou veios. 


Atualização 03/10/2019 - Desde que escrevi este artigo, que fez muito sucesso, mudei ligeiramente de posicionamento. A grafia "viado" é tão consolidada no Brasil que lutar contra ela me parece fútil. Seu domínio é tal que se tornou possível a um redator bem-informado optar por ela em vez de "veado" com o específico fim de seguir a convenção social, o que torna filosoficamente problemático classificar tal conduta de "erro ortográfico". Mantenho, contudo, a posição de que a origem do termo está no cervídeo, e não nas palavras "desviado" ou "transviado". Aproveito para justificar a afirmação: uma regra da linguística é que, quando ocorre na língua mudança sonora, ela tende a afetar todas as palavras relevantes. E, até onde eu saiba, não há exemplos de outras palavras iniciadas por "des" ou "trans" que tenham perdido estas partículas. Ao contrário, há casos em que o tempo acrescentou a partícula "des", mesmo ela sendo absolutamente redundante: penso especificamente em "desinquieto", que é sinônimo de "inquieto". Isso sugere fortemente que a origem de "viado" está mesmo numa analogia com o animal saltitante, como, aliás, também pensam nossos dicionaristas mais renomados.