Você já deve ter reparado que, quando os jornais transcrevem a fala de uma gravação, eles põem em itálico as formas linguísticas não padrão, como tá ou pra. A premissa é que seriam "desvios", como que palavras estrangeiras intrometidas.
Mas eis que eu vejo isso no Jornal Hoje da Globo:
"Eu tive que rapar minha cabeça, né?"
O responsável pelo texto aceitou até mesmo a contração informal "né", mas não aguentou o "rapar" e o marcou com o estigma do itálico. Deve ter pensado que seria uma corruptela de raspar, essa sim a forma correta.
Pois ele errou feio. A palavra rapar existe no português pelo menos desde o século XIII e um dos seus significados é cortar rente o pelo com navalha. Está até na Bíblia: “Então Jó se levantou, e rasgou o seu manto, e rapou a sua cabeça, e se lançou em terra, e adorou” (Jó. 1:20).
Existem muitos gramáticos que dizem até o contrário do que o funcionário da Globo inferiu: rapar a cabeça seria a única forma correta, e raspar a cabeça seria um erro. Mas essa é uma visão minoritária: a maioria aceita como igualmente corretos rapar e raspar (ambos de etimologia germânica; o Houaiss dá hrapon e hraspon, respectivamente).
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Como pronunciar Arjen Robben
Clique aqui para ouvir as pronúncias dos holandeses para o nome do jogador Arjen Robben.
A pronúncia clássica e mais comum é com o R vibrante (ouça) , um som incomum no Brasil, mas que a gente ouve na fala de pessoas como Luiz Felipe Scolari (Felipão) e José Serra.
A segunda pronúncia válida é um som gutural (clique para ouvir) que, aos ouvidos de um brasileiro, soa como o nosso "RR", mas que os holandeses vão achar bem diferente.
Ainda em alguns sotaques, o som do R de Robben é realmente idêntico ao som do R inicial no Brasil (ouça e compare).
Com tudo isso, como é que grande parte dos jornalistas do Brasil escolhe pronunciar o nome do jogador holandês? Com um R retroflexo (ouça), como se estivessem falando inglês. É que, em certa lógica provinciana brasileira, toda língua exótica é inglês.
É preciso contar toda a verdade: até existe uma cidade na Holanda (Leiden) onde as pessoas realmente falam Robben desse jeito, com R retroflexo como em inglês. Mas isso justifica a pronúncia que os jornalistas têm dado? A resposta honesta é não. No máximo, a informação serve de desculpa ad hoc para quem adotava a pronúncia sem nunca ter ouvido falar de Leiden.
É indefensável que Robben seja pronunciado no Brasil de qualquer forma que não igual a robem (de roubar). Além de ser aceitável em holandês, é o nosso jeito natural de falar. O que não é nada natural para a gente é o R retroflexo que imita o inglês. A pessoa que fala assim sai da naturalidade dela achando que está sendo mais correta e elegante, quando, na verdade, está conseguindo justamente o contrário. O nome técnico para isso é hipercorreção. É o mesmo erro que o pai de Gleisi Hoffman cometeu: quis homenagear Grace Kelly, mas achou que /Greice/ era pronúncia de gente ignorante e "corrigiu" para /Gleice/.
A pronúncia clássica e mais comum é com o R vibrante (ouça) , um som incomum no Brasil, mas que a gente ouve na fala de pessoas como Luiz Felipe Scolari (Felipão) e José Serra.
A segunda pronúncia válida é um som gutural (clique para ouvir) que, aos ouvidos de um brasileiro, soa como o nosso "RR", mas que os holandeses vão achar bem diferente.
Ainda em alguns sotaques, o som do R de Robben é realmente idêntico ao som do R inicial no Brasil (ouça e compare).
Com tudo isso, como é que grande parte dos jornalistas do Brasil escolhe pronunciar o nome do jogador holandês? Com um R retroflexo (ouça), como se estivessem falando inglês. É que, em certa lógica provinciana brasileira, toda língua exótica é inglês.
É preciso contar toda a verdade: até existe uma cidade na Holanda (Leiden) onde as pessoas realmente falam Robben desse jeito, com R retroflexo como em inglês. Mas isso justifica a pronúncia que os jornalistas têm dado? A resposta honesta é não. No máximo, a informação serve de desculpa ad hoc para quem adotava a pronúncia sem nunca ter ouvido falar de Leiden.
É indefensável que Robben seja pronunciado no Brasil de qualquer forma que não igual a robem (de roubar). Além de ser aceitável em holandês, é o nosso jeito natural de falar. O que não é nada natural para a gente é o R retroflexo que imita o inglês. A pessoa que fala assim sai da naturalidade dela achando que está sendo mais correta e elegante, quando, na verdade, está conseguindo justamente o contrário. O nome técnico para isso é hipercorreção. É o mesmo erro que o pai de Gleisi Hoffman cometeu: quis homenagear Grace Kelly, mas achou que /Greice/ era pronúncia de gente ignorante e "corrigiu" para /Gleice/.
POSSUIR ou TER: Quando usar cada um
Possuir NÃO É a mesma coisa que ter. Muita gente troca "eu tenho muitos amigos" por "eu possuo muitos amigos", num formalismo ingênuo de primeiro ciclo do ensino fundamental. Está errado! Não se "possui" uma pessoa, a não ser no sentido sexual.
Eu não estou dizendo que quem diz que possui amigos "na verdade está dizendo" que faz sexo com eles. Muitos colunistas de dicas de português falam esse tipo de coisa (quis dizer X, na verdade disse Y), mas isso está errado. Se você quis dizer que tem amigos e se foi assim que os seus leitores entenderam, foi exatamente isso o que você disse, não outra coisa.
Eu me sinto confortável para fazer essa prescrição sobre o uso de "possuir" porque até Marcos Bagno reclamou desse uso inadequado, e se trata de uma das pessoas que mais condenam o prescritivismo linguístico. É que o que ele condena mesmo é tachar de erro fenômenos que já são normais na língua, como "aonde está" em vez de "onde está". "Possuir amigos" não tem nada de normal; ao contrário, é um desvio proposital da normalidade. O normal é sempre "ter amigos", não importa o nível de formalidade.
Eu não estou dizendo que quem diz que possui amigos "na verdade está dizendo" que faz sexo com eles. Muitos colunistas de dicas de português falam esse tipo de coisa (quis dizer X, na verdade disse Y), mas isso está errado. Se você quis dizer que tem amigos e se foi assim que os seus leitores entenderam, foi exatamente isso o que você disse, não outra coisa.
Eu me sinto confortável para fazer essa prescrição sobre o uso de "possuir" porque até Marcos Bagno reclamou desse uso inadequado, e se trata de uma das pessoas que mais condenam o prescritivismo linguístico. É que o que ele condena mesmo é tachar de erro fenômenos que já são normais na língua, como "aonde está" em vez de "onde está". "Possuir amigos" não tem nada de normal; ao contrário, é um desvio proposital da normalidade. O normal é sempre "ter amigos", não importa o nível de formalidade.
Veja o quanto Rachel Sheherazade mudou o sotaque depois de ficar famosa
Não é desde sempre que Rachel Sheherazade luta contra o sotaque; isso só começou de uns tempos para cá. Quando ela ainda não era famosa e trabalhava na TV Tambaú (afiliada do SBT em João Pessoa), ela falava com um sotaque nordestino muito mais solto. Vejam o vídeo que catapultou ela para a fama:
Os exemplos mais salientes que a gente ouve aí são a palatalização de /s/ antes de /t/ (feshtas, reshto) e a abertura das vogais pretônicas (Ó-linda, proté-ção). Por contraexemplo, ela palataliza as oclusivas dentais (fala tchi em vez de ti), o que não é típico da Paraíba.
"O que vemos são muitos jornalistas do eixo Rio-São Paulo em outras partes do País ancorando telejornais. Nunca fiquei sabendo de um jornalista da Paraíba comandando um jornal nacional em horário nobre."Numa entrevista, perguntaram explicitamente a Rachel Sheherazade se ela controlava o sotaque para falar na televisão (clique para acessar o vídeo e comece a 18'00''). A resposta foi essa:
Quando eu comecei a fazer TV, a primeira coisa que me disseram é o seguinte: quem tem que chamar a atenção é a notícia. Não é teu cabelo, não é tua maquiagem, não é a tua roupa nem o brinco que cê usa, e nem a forma como você fala. Então você tem que falar de uma maneira... uma forma neutra. Então, eu sempre busquei neutralizar o sotaque, desde a Paraíba já.Algumas pessoas diriam que fazer jornalistas nordestinos disfarçarem o sotaque é "preconceito linguístico". É uma interpretação possível, mas quem pensa assim tem o consolo de saber que a mesma instrução é dada a jornalistas de todas as regiões, não só do Nordeste. William Bonner é paulista, mas nem parece, porque ele também "neutralizou" o sotaque. Fátima Bernardes idem (ela é carioca).
Depois do FULANO, vem o SICLANO ou o SICRANO?
Depois do fulano, vem o sicrano, com R. "Siclano" com L está errado. Até existe a palavra ciclano, mas ela é da química e designa um hidrocarboneto cíclico saturado.
Como foi que o povo se meteu a falar "Siclano", então? Desconfio que essa variante tenha origem numa hipercorreção (ou ultracorreção), que quer dizer errar de tanta vontade de acertar. Existem pessoas no Brasil que falam Cráudia em vez de Cláudia e chicrete em vez de chiclete, num fenômeno denominado rotacismo. Tais pessoas sabem que essa forma de falar é estigmatizada na sociedade, considerada feia e própria de gente sem instrução. Sabendo disso, esses falantes mudam o jeito de falar em algumas situações: em vez de falar Cráudia, falam Cláudia, para serem melhor aceitos pelos outros. Seguindo a mesma lógica, trocam Sicrano, que só pode ser coisa de gente ignorante, por Siclano, que, essa sim, deve ser a forma correta. E erram pela vontade de acertar: está aí a hipercorreção.
Prova viva desse fenômeno é a ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffmann. Os pais dela queriam homenagear a princesa e atriz Grace Kelly, mas o pai pensou que a pronúncia "greice" fosse errada, coisa de ignorante. "Corrigiu" então o nome para Gleisi, fazendo uma hipercorreção que a ministra vai ter de carregar até o fim da vida e além. (Fonte: UOL)
Outro exemplo do fenômeno da hipercorreção é o nome Cleusa, forma "corrigida" de Creusa, que, ao que tudo indica, vem de Creúsa, figura da mitologia grega.
Quando usar POIS e quando usar PORQUE
Quanto pior se domina a norma culta, maior parece ser a tendência de pensar que escrever bem é escrever "chique". Em alguns casos, quem segue esse caminho pode cometer erros que não cometeria de outra forma e acabar se fazendo de bobo. O oposto do efeito pretendido.
Pela norma culta, a seguinte frase é corretíssima: "Deve ter chovido, porque a rua está molhada".
Mas aí a pessoa que não aprendeu a escrever direito fica querendo soar mais chique e troca o porque por um pois. "Deve ter chovido, pois a rua está molhada."
Até aí, tudo bem, porque a frase continua correta. Mas pode acontecer também o que acontecia com os meus colegas de sala e que me irritava profundamente aos 9 anos. O livro-texto perguntava "Por que a galinha atravessou a rua?". E o menino sem noção escrevia a seguinte pérola:
"A galinha atravessou a rua pois queria chegar ao outro lado."
Errado! João atravessou a rua PORQUE queria chegar ao outro lado. Pois não é apenas uma versão "chique" de porque. Às vezes dá para trocar um pelo outro, sim, mas nem sempre. Pois (sempre precedido de vírgula) vem depois de que se faz uma afirmação e significa "e isso é porque". Porque pode significar a mesma coisa, mas pode, além disso, significar "pelo motivo de que". E, para esse significado, pois não serve.
"A galinha atravessou a rua pois queria chegar ao outro lado." ERRADO
"A galinha atravessou a rua porque queria chegar ao outro lado." CERTO
"Deve ter chovido, pois a rua está molhada". CERTO
"Deve ter chovido, porque a rua está molhada". CERTO
Pela norma culta, a seguinte frase é corretíssima: "Deve ter chovido, porque a rua está molhada".
Mas aí a pessoa que não aprendeu a escrever direito fica querendo soar mais chique e troca o porque por um pois. "Deve ter chovido, pois a rua está molhada."
Até aí, tudo bem, porque a frase continua correta. Mas pode acontecer também o que acontecia com os meus colegas de sala e que me irritava profundamente aos 9 anos. O livro-texto perguntava "Por que a galinha atravessou a rua?". E o menino sem noção escrevia a seguinte pérola:
"A galinha atravessou a rua pois queria chegar ao outro lado."
Errado! João atravessou a rua PORQUE queria chegar ao outro lado. Pois não é apenas uma versão "chique" de porque. Às vezes dá para trocar um pelo outro, sim, mas nem sempre. Pois (sempre precedido de vírgula) vem depois de que se faz uma afirmação e significa "e isso é porque". Porque pode significar a mesma coisa, mas pode, além disso, significar "pelo motivo de que". E, para esse significado, pois não serve.
"A galinha atravessou a rua porque queria chegar ao outro lado." CERTO
"Deve ter chovido, pois a rua está molhada". CERTO
"Deve ter chovido, porque a rua está molhada". CERTO
Como pronunciar Roosevelt e Bush
De todos os chefes de estado da
história, nenhum teve o nome falado errado mais vezes do que Roosevelt. Não
importa qual dos dois, Franklin ou Theodore.
Clique para ouvir:
Já vou dizendo: a pronúncia do
nome é /ˈɹoʊzəvɛlt/, ou, usando as convenções do português, rôuzevelt. No Brasil, a pronúncia corrente é
\rúzvel\ ou \rúzvelt\. De fato, no inglês, "oo" costuma representar o som /u:/. Só em muito poucas palavras essa regra falha. Uma delas é Roosevelt.
Não é só no português que esse engano é cometido. Como é que eu sei? Há idiomas que não usam o nosso alfabeto e, por isso, são obrigados a mudar a escrita de "Roosevelt", adaptando-a à sua pronúncia. Transliterando de volta ao alfabeto latino a forma como escreveram o nome do ex-presidente, vemos: Rúzvel't (russo), Ruzvelt (iídiche), Rūzuberuto (japonês). Em contrapartida, em hindi é rozvelṭ. Poderia ser porque o hindi teve mais contato com o inglês?
E por que é que Roosevelt se pronuncia desse jeito tão inusitado, que confunde o mundo inteiro? É que vem do holandês rosevelt, que quer dizer "campo de rosas". Velt é cognato de field; rosa em inglês se diz rose, e qualquer um que já viu o filme Titanic sabe pronunciar essa palavra, mesmo que só tenha visto alguns minutos. Clique aqui para ver todas as (muitas) falas do filme em que esse nome aparece.
E Bush? De novo, também não importa qual dos dois. Não importa se é Bush pai ou Bush filho. Esse outro nome presidencial relacionado com planta não ganha de Roosevelt na competição pelo título de mais malpronunciado, mas é um candidato competitivo. Ouça a pronúncia nativa:
Muitos brasileiros falam "Bush" como /bʌʃ/, ou, escrevendo de outra forma, \bâch\. Pronunciam o U do nome do mesmo jeito que o U de up. Na verdade, o U de Bush se fala /ʊ/, igual ao de push. É como o som de U no português, só que com a língua um pouco mais para baixo e para frente. É o som que em português fazemos para o O no fim das palavras, como em pato /pa'tʊ/. Ouça abaixo esse som aparentemente exótico.
O jeito certo de pronunciar o nome em português é \buch\, mas qualquer um entende por que uma pessoa comete o engano. É que a letra U em inglês sabidamente representa o som \â\ num grande número de casos, como luck. Mas nem sempre. A aplicação exagerada de uma suposta regra da língua, levando ao erro, se chama hipercorreção. De tanto querer acertar, a pessoa erra. O problema aqui é que a letra U também representa em inglês /u:/, como em true, e há ainda um terceiro som, raro, que é esse U fechado que você ouviu, como em put, cushion e sugar. Se quer saber, esse era o som original do U. Com o tempo, a pronúncia mudou para o \â\ atual. O som antigo só continuou em algumas poucas palavras, especialmente as que começavam em P, F ou B e terminavam em L, CH ou SH. Bush é uma das palavras que se encaixam nessa descrição. Outros exemplos: full e bull, que os brasileiros pronunciam corretamente em "Full House" e "Red Bull".
Para os que não entenderam o porquê da imagem de um arbusto acima, ou nem pensaram nisso: bush quer dizer arbusto.
DE BOASSA ou DE BOAÇA? Como escrever
"De boassa" é uma grafia inapelavelmente errada.
A palavra é formada por boa + -aça, sendo -aça ou -aço um sufixo aumentativo (derivado do românico -atìu). É o mesmo sufixo que a gente vê em amigaço ou loiraça. E qualquer pessoa alfabetizada devia saber que esse sufixo é grafado com cê-cedilha.
Mesmo sem saber disso, no entanto, ainda assim é possível deduzir a grafia usando a memória visual. Existem (no Houaiss) 114 palavras terminadas em "aça", sendo que uma minoria delas não tem o sufixo (por exemplo, praça). As palavras terminadas em "assa", com dois esses, não passam de ridículas 14, uma desigualdade acachapante. Isso significa que, se uma pessoa ouvisse boaça pela primeira vez e tivesse que adivinhar sua ortografia, ela saberia intuitivamente que é com Ç, porque se lembra de palavras como fumaça, cachaça e ameaça, e quase não se lembra de palavras terminando em "assa". De quantas você consegue se lembrar?
Então o que é que leva uma pessoa a digitar a palavra como "boassa", em vez de "boaça"? Provavelmente os mesmos motivos que levam algumas pessoas (principalmente crianças metidas a adolescentes) a escrever naum em vez de não. Nos dois casos, não se trata de economia de digitação; trata-se antes de uma questão estética. Mas, ao contrário do que acontece com "naum", há outro motivo: o sujeito já viu essa grafia tantas vezes que pode achar que é a forma correta. Numa pesquisa do Google, "de boassa" rende 24.500 resultados, enquanto "de boaça" rende apenas 18.200.
Um guia possível para saber se se deve escrever com Ç ou com SS poderia ser o espanhol. A tradução de boaça nessa língua é buenaza. Eles usam sempre Z onde nós usamos Ç. Originalmente, eles tinham as duas letras, igual nós, mas, em algum momento, o Z perdeu a sonoridade e passou a ser falado igual ao Ç. No século XVIII, decidiram que era um desperdício ter duas letras para o mesmo som e eliminaram o Ç, trocando-o por Z. Aliás, esse sinalzinho embaixo do C não é nada menos que um Z caligráfico. Veja:
Por outro lado, fracasso em espanhol se escreve fracaso. É que nessa palavra não existe o sufixo -aço (-azo em espanhol). A palavra não veio de fraco + -aço, veio do italiano fracasso, que não tem nada a ver com "fraco".
A palavra é formada por boa + -aça, sendo -aça ou -aço um sufixo aumentativo (derivado do românico -atìu). É o mesmo sufixo que a gente vê em amigaço ou loiraça. E qualquer pessoa alfabetizada devia saber que esse sufixo é grafado com cê-cedilha.
Mesmo sem saber disso, no entanto, ainda assim é possível deduzir a grafia usando a memória visual. Existem (no Houaiss) 114 palavras terminadas em "aça", sendo que uma minoria delas não tem o sufixo (por exemplo, praça). As palavras terminadas em "assa", com dois esses, não passam de ridículas 14, uma desigualdade acachapante. Isso significa que, se uma pessoa ouvisse boaça pela primeira vez e tivesse que adivinhar sua ortografia, ela saberia intuitivamente que é com Ç, porque se lembra de palavras como fumaça, cachaça e ameaça, e quase não se lembra de palavras terminando em "assa". De quantas você consegue se lembrar?
Então o que é que leva uma pessoa a digitar a palavra como "boassa", em vez de "boaça"? Provavelmente os mesmos motivos que levam algumas pessoas (principalmente crianças metidas a adolescentes) a escrever naum em vez de não. Nos dois casos, não se trata de economia de digitação; trata-se antes de uma questão estética. Mas, ao contrário do que acontece com "naum", há outro motivo: o sujeito já viu essa grafia tantas vezes que pode achar que é a forma correta. Numa pesquisa do Google, "de boassa" rende 24.500 resultados, enquanto "de boaça" rende apenas 18.200.
Um guia possível para saber se se deve escrever com Ç ou com SS poderia ser o espanhol. A tradução de boaça nessa língua é buenaza. Eles usam sempre Z onde nós usamos Ç. Originalmente, eles tinham as duas letras, igual nós, mas, em algum momento, o Z perdeu a sonoridade e passou a ser falado igual ao Ç. No século XVIII, decidiram que era um desperdício ter duas letras para o mesmo som e eliminaram o Ç, trocando-o por Z. Aliás, esse sinalzinho embaixo do C não é nada menos que um Z caligráfico. Veja:
Por outro lado, fracasso em espanhol se escreve fracaso. É que nessa palavra não existe o sufixo -aço (-azo em espanhol). A palavra não veio de fraco + -aço, veio do italiano fracasso, que não tem nada a ver com "fraco".
Falámos ontem, falamos agora
Uma das diferenças entre o português brasileiro e o de Portugal que, contrariando sua razão de ser, o Acordo Ortográfico não eliminou, é o uso de acento agudo em palavras como falámos, andámos, noticiámos. Os portugueses escrevem esse acento porque realmente pronunciam o A aberto nessas palavras, que estão no pretérito. Quando os verbos estão no presente, a pronúncia (e em consequência a escrita) é como a brasileira: falamos, andamos. "Trabalhámos ontem, descansamos amanhã." Eu considero essa a divergência mais séria entre as que sobraram, porque é a mais complexa.
O argumento para a manutenção dessa diferença foi que já se tentou eliminá-la em 1945 e não deu certo, o que levaria à conclusão de que nesse caso não se pode tornar a escrita igual se as pronúncias são diferentes.
No entanto, conforme relato de Antenor Nascentes, os brasileiros antigamente (1922) escreviam como os portugueses, apesar de não falarem como eles. Escreviam "falámos ontem, falamos agora", embora falassem (e continuem a falar) "falâmos ontem, falâmos agora". Nas escolas, os professores equivocadamente diziam aos alunos que a maneira correta de falar era \falámos\, como a escrita sugeria, embora ninguém falasse dessa forma na vida cotidiana. E hoje mesmo tem milhões de portugueses do norte que falam sempre \falâmos\, assim como os brasileiros, e mesmo assim escrevem falámos.
Ou seja, é mentira que fosse impossível unificar a grafia de falámos. Até mesmo a reforma de 1986, radical como ela era (abolia a maioria dos acentos), se absteve de resolver essa divergência; assim como o Acordo que acabou passando, propunha a dupla grafia.
A escrita brasileira no passado era, portanto, idêntica à de Portugal, e o que separou as duas foi não uma necessidade linguística, mas a pura incompetência das academias, que promulgaram reformas sem cuidado. Esses erros tiveram que ser parcialmente corrigidos agora em 2009, não sem custo aos brasileiros e portugueses.
Como poderíamos resolver esse problema? Eu proporia tirar o acento de falámos e adicionar outro à forma do presente do verbo: "Trabalhamos ontem, descansâmos amanhã". "Falâmos" refletiria a pronúncia da palavra em toda a lusofonia, de modo que não haveria problema em usar esse acento onde quer que fosse, inclusive no Brasil. Já a forma do pretérito, "falamos", ficaria sem acento e serviria igualmente às duas pronúncias: \falámos\, no sul de Portugal, e \falâmos\, no norte e no Brasil. Por que é que isso nunca foi proposto?
"Batêmos" e "comêmos" poderiam levar acento também, embora a pronúncia \batémos\ e \comémos\ não exista em Portugal (nesse caso, a pronúncia é a mesma para o presente e para o futuro) . Do contrário, os brasileiros e até os portugueses teriam trabalho a mais para aprender que "falâmos" teria acento mas "batemos" e "comemos" não. O acento aí não serviria para diferenciar uma pronúncia, e sim distinguir o significado na escrita, desfazendo ambiguidades. Por exemplo: "Prometemos ajudar" pode ser ou uma promessa para o futuro, ou uma constatação de que se fez promessa no passado. A única dúvida seria usar ou não acento em fazemos, temos e vemos, que não se confundem com fizemos, tivemos e vimos.
A Academia de Ciências de Lisboa jurou que o acento em "trabalhámos" era só diferencial e que não tinha nada a ver com a pronúncia, mas não escreveram *batémos, porque isso não correspondia à pronúncia de Lisboa. Se fosse para haver um acento diferencial verdadeiro (o que seria útil, como já mostramos), teria que ser o acento circunflexo: "Trabalhamos ontem, descansâmos e bebêmos hoje". Além de eliminar uma ambiguidade, teríamos uma grafia única para Brasil e Portugal.
Mas não. O espírito das academias hoje é só tirar acentos, nunca colocar novos. Então continuamos com essa realidade: falámos em Portugal, falamos no Brasil.
"Batêmos" e "comêmos" poderiam levar acento também, embora a pronúncia \batémos\ e \comémos\ não exista em Portugal (nesse caso, a pronúncia é a mesma para o presente e para o futuro) . Do contrário, os brasileiros e até os portugueses teriam trabalho a mais para aprender que "falâmos" teria acento mas "batemos" e "comemos" não. O acento aí não serviria para diferenciar uma pronúncia, e sim distinguir o significado na escrita, desfazendo ambiguidades. Por exemplo: "Prometemos ajudar" pode ser ou uma promessa para o futuro, ou uma constatação de que se fez promessa no passado. A única dúvida seria usar ou não acento em fazemos, temos e vemos, que não se confundem com fizemos, tivemos e vimos.
A Academia de Ciências de Lisboa jurou que o acento em "trabalhámos" era só diferencial e que não tinha nada a ver com a pronúncia, mas não escreveram *batémos, porque isso não correspondia à pronúncia de Lisboa. Se fosse para haver um acento diferencial verdadeiro (o que seria útil, como já mostramos), teria que ser o acento circunflexo: "Trabalhamos ontem, descansâmos e bebêmos hoje". Além de eliminar uma ambiguidade, teríamos uma grafia única para Brasil e Portugal.
Mas não. O espírito das academias hoje é só tirar acentos, nunca colocar novos. Então continuamos com essa realidade: falámos em Portugal, falamos no Brasil.
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